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19.11.08










AMIGO AO SEU JEITO (1975) (para Flávio Salles)

Quantas idéias vadias, idéias sadias
E sonhos meninos, guardou.
E a sua voz, de repente, se chega pra gente
Cantando o que o amor já cantou.

Todo o seu jeito guardado
De alguém machucado
Se dando nas cordas de um violão
Vive se achando e perdendo
De amor já morrendo
E nascendo a cada canção

Esse amigo do peito
Amigo a seu jeito
Menino, a gente te vê,
E sob o teu jeito maroto
O antigo garoto
Que sonha viver

Menino, que em toda poesia
Nas noites vazias
Nos faz renascer
Menino, você não se cabe
E o mundo não sabe
Que gente é você.

{11/19/2008}!

11.10.08












TELA DE RETALHOS QUE VAI FECHANDO O CICLO

Nós , kardecistas viemos há algum tempo observando que a fase do planeta Terra como planeta de provas e expiações estava chegando ao seu final para entrarmos - finalmente - na fase de regeneração. Mas ao olharmos o mundo , o capitalismo como um monstro que se agregava às pessoas que queriam sempre mais, ligadas aos prazeres da matéria e inteiramente desligados dos valores espirituais chegamos a pensar que não seria a nossa geração que presenciaria essa mudança - mudança que , fatalmente - deveria acontecer.

Observemos o cenário ( como uma mestra querida gosta tanto de dizer ) e veremos - se quisermos ver, naturalmente - que de vários pontos dessa esfera temos tido fatos que - se bem observados - vão alinhavando-se a outros, que por sua vez se alinhavam a outros, como formando uma imensa tela de retalhos.

Por exemplo: A mim parece extremamente claro que a queda do Império Americano não se iniciou com a quebra dos bancos e tudo que acompanhamos no cenário mundial dos dias de hoje. A queda do Império Americano, que denunciou a sua fragilidade, se deu naquele inesquecível 11 de setembro, com a queda lamentàvelmente monumental das duas torres, mostrando ao mundo que o Império não era tão inacessível quanto nos fazia crer. Dois pequenos aviões, dirigidos por dois kamikases que levantaram vôo sabe-se lá de onde, conseguiram mostrar ao mundo que como a Grécia um dia ruiu, o Poder de Roma um dia caiu e hoje cai o aparentemente inacessivel Sistema do Império Americano.

Um pouco antes dos fatos de agora, vários fatores na natureza pareciam expressar o seu descontentamento de como vinha sendo tratado esse tão lindo planeta. Mares invadiram terras, terras tremeram e se abrindo derrubaram muita matéria no chão, furacões se fizeram notas em várias partes do planeta, vulcões há muito desativados ( como o Etna, na Sicília ) pareciam uivar jorrando larvas que queimavam a terra destruindo eventuais tipos de vida que estivessem no seu caminho. A natureza bradou bem alto o seu desagravo ao momento presente, ao materialismo que na sua sede insaciável de bens se esqueceu totalmente de preservar o planeta que os acolheu e que o Homem vem tratando tão mal.

As guerras incessantes nos mais variados campos da terra - mais uma vez com o fim de se apossarem do poder material, seja através do petróleo, seja através de armas nucleares, seja através do poder das idéias - matavam homens, idéias, crianças, sonhos de um futuro que nem chegariam a atingir.

Se nós juntarmos tudo isso e muito mais que esqueci e estou com sono pora lembrar, teremos uma colcha de retalhos manchada de sangue de todos os tipos, de homens de todas as raças , de tudo pelo qual a crescente necessidade de poderio econômico tenta justificar.

Realmente, a terra está se transformando num planeta de regeneração. O kardecismo nos ensina que há mais ou menos 90 bilhões de espíritos imortais e apenas um terço está na terra, o resto está na fila do andar de cima esperando a sua vez de reencarnar. Mas para que possa ser mantido o equilíbrio para que essa nova espiritualidade possa chegar, muita , muita gente terá que se despedir.E se nós observarmos, já houve outros momentos históricos em que ocorreram guerras, acidentes terrestres, fúria das águas, furor da terra que manchou de sangue as ruas pelas quais passam o que se tende a chamar de humanidade para outra renovação mas não tão intensa queanto tenderá a ser essa que já se manifesta em vários segmentos.

E se amarrarmos tudo isso, veremos que estamos justamente sentados num momento como esse. E se todo esse movimento tem como objetivo fazer o planeta evoluir de planeta de provas e expiações para um planeta de regeneração, muita gente tem mesmo que ir embora - de preferência as sintonizadas com o Mal - para que novos serem incorporem e ocumpem o seu lugar. De preferência os sintonizados com a luz, os comprometidos com o Bem, os portadores do Amor.

De forma que - lamentàvelmente - não posso lastimar a queda do prepotente Império Americano. Talvez tenham que deixar de comer cheesebourg com bacon e batata frita e passar a um legumezinho mais barato , adequado a esse momento, o que poderá até melhorar o estado deplorável do seu fígado, tão deplorável quanto a sua necessidade de poder.

Nosso caro Presidente afirma que a crise não afetará em nada o Brasil. O que me leva a crer que ele tem algum plano secreto para fazer do Brasil um país alavancado e separado da terra que ficará como ele próprio já fica , vagando no vazio do espaço enquanto tudo se quebra e o coitado não vê.

No meio de tanta tristeza, tivemos um enorme alegria de termos um Sr.Fernando Gabeira muito próximo de se eleger Prefeito do Rio de Janeiro. Enquanto as consequências das inúmeras CPIs vão virando pizza , vemos um homem honrado, que mesmo dentro de um Congresso inteiramente defecado, não perde sua calma nem se suja na multidão. Creio ser esse o único entusiasmo que tive na política desde 1968: ver um homem íntegro, gabaritado, que com sua fala mansa vai não só mostrando o seu conhecimento sobre os infinitos problemas da cidade do Rio de Janeiro como mostrando com a mesma calma as soluções LEGAIS para reverter esse processo cada dia mais cruel.

Nada do que dissemos está dissociado um do outro. São processos que formam o mesmo retalho. A grande possibilidade de antes da nossa geração morrer - o que já vem acontecendo desde o tempo dos porões da ditadura - merecermos o prêmio de ver o único homem íntegro, incorruptível e conhecedor dos problemas aos quais se compromete no poder dessa cidade tão infinitamente linda quanto miserável que agora corre o risco de ser uma cidade humanizada , onde a impunidade que sempre correu à solta possa morrer e no seu lugar nascer de novo a esperança de dias mais vibrantes, mais coloridos, mais integrados com os pobres-miseráveis moradores nas inúmeras ruas dessa cidade , da qual penso que - brevemente - terei o inusitado orgulho de pertencer.

Boa noite de novo, sr Prefeito Fernando Gabeira.
Que Deus o abençoe.
Vera Linhares
{10/11/2008}!

9.10.08











Poderíamos começar esse texto assim: " Era uma vez um país descoberto na metade do milênio pelos portugueses, o que já fazia dele um país meio engraçado, onde os homens pensavam que a política era uma coisa séria e como ela não era - ao menos nesse país - durante muito tempo precisou de um pai que lhe mostrasse isso. Um não, vários pais, porque a nossa história é uma história em que os ditadores sempre imperaram, só mudavam de nome. Houve um que nem mudava de nome. Era brilhante e caudilho o suficiente para - com o mesmo nome de avenida - passar por todos os estilos de Governos, desde mandar uma mulher brilhante para que um bigode maluco a mandasse para morrer num campo de concentração nazista , caudilho que era , quando viu que a coisa estava esquentando pro seu lado tirou umas férias pra tomar chimarrão até que tudo se acalmasse e voltou magnificamente eleito pelo mesmo povo que anos antes o queria comer como churrasquinho.Um homem pouco entendido - ditador não precisa mesmo ser entendido. É porque é e estamos conversados - pelo povo que o trouxe de volta carregado nos ombros da massa humana que o trouxe - gloriosamente - de volta ao lugar que - na verdade - nunca saiu. De todos os "pais" que essas terras de além-mar precisaram , esse foi o mais interessante, o mais criativo, o mais antenado com as necessidades do momento. Até leis favorecendo imensamente o povo ele fez: décimo terceiro salário, férias remuneradas, não sei quantas horas semanais de trabalho, e assim arranjou mais uma multidão que - fanáticos - faziam como minha avó: mandavam fazer um busto de bronze com o seu rosto e o colocava no lugar de mais destaque na sala. E quando nosso herói viu que daquele coco não tiraria mais nenhuma aguinha, fez o gesto mais eloquente de sua carreira deixando a única frase verdadeiramente inteligente dita em todos os tempos nesse pobre país. " Saio da vida para entrar para a história ".

Depois dele veio um o único presidente de verdade que esse engraçado país já teve. Combinava tanto com o país que até sorrisos e bom humor ele tinha. Mas isso é uma outra história.

O fato é que depois dessa eminência fomos rolando, rolando, rolando e caímos sentadinhos no colo dos generais. Juventude legal, a daqueles tempos. E soldados cruéis que sob as ordens da elite das tropas nacionais massacraram estudantes indefesos fazendo de André Luís - que só tinha ido almoçar, nem sequer atuante era - o maior ídolo morto nesse engraçado país.,

Aí é um tal de resgatar prá cá e exilar prá lá. Isso durou muitos, muitos anos. E quando o nosso Gabeira - um homem raro pela sua liberdade e integridade entre ação e pensamento - sacou que isso aqui não era mesmo um país sério, foi embora para nem sei onde , deixando o tempo passar até que pudesse, voltar de sunguinha de crochê, e despencar no seu querido Arpoador.

Muita coisa havia mudado nesse - cada vez mais estranho país . Só uma coisa estava num nível tão alto, de uma forma tão descarada que ele continuou magrinho para não acharem que ele mamava na mesma teta.

E eis que agora - com essa bosta que inventaram de voto útil - inacreditàvelmente temos um Gabeira num segundo turno, candidato a Prefeito da cidade mais linda desse pais. E assim me colocam numa sinuca de bico.

Na verdade estou de saco cheio de votar e ainda votar com gente falando no meu ouvido: " Ele não é um administrador, ele não vai fazer conchave com o governo nem buscar verbas para melhorar nossa cidade ". Até que ainda agora , meia-noite e meia me vem essa história na cabeça e tomo uma decisão imbatível. É claro que vou votar no Gabeira. Ele não é um administrador? Graças a Deus, está bem longe então das velhas maracutaias. Ele não vai fazer conchave com o governo nem com ninguém como fez o sapo barbudo - desastre da minha vida - ? Isso é uma maravilha. No dia seguinte que passou ao segundo turno passou o dia na praia de sunguinha? Tomara que seja assim que vá trabalhar todo dia, porque só esconderá de todos nós o que todos nós sabemos o que tem entre as suas pernas. O sapo barbudo e o Congresso Nacional vestem tanta roupa para caber tantos bilhetinhos e muito mais que é melhor mesmo que seja assim: decretada a sunga como uniforme da ordem do dia. Porque a cabeça dele é livre como seu corpo. É o único político dos lá se vão quarenta anos que NUNCA deixou que o poder lhe subisse à cabeça nem que a corja vigente lhe enchesse os bolsos que de sunga nem tinha. E diante de outros argumentos: " Ele é um poeta, não é um administrador " Vão fazer com ele o que fizeram com o Saturnino.

Quanto ao Saturnino não sei mas quanto a ter um poeta na Prefeitura é muito , muito melhor do que ter os velhos e conhecidos ladrões.
Quem sabe ele não irá compor mais uma parte do Hino Nacional que fale do momento atual que necessita mesmo de poesia porque de ladrão nossa pátria está cheia.

Já que ele vai de sunga, irei de biquine à sua posse, sr. Gabeira. E terei tudo o que me resta do meu orgulho patriótico depositado na sua sunga e no seu jeito tão lento de falar. Fala lento para poder pensar e agir com honestidade , humildade e lealdade a esse povo que já está exausto de ser tão infeliz.

Boa noite, senhor futuro Prefeito.
{10/9/2008}!

22.8.08











Para Zoé , com toda a minha imensa gratidão e o meu afeto eterno.
Vera
{8/22/2008}!















{8/22/2008}!




O PROCESSO TERAPÊUTICO + O ENCONTRO COM O DIVINO = O OITAVO TRABALHO DE HÉRCULES



Ela seria – no mínimo uma tola – se desprezasse a imensa importância do que aprendeu a chamar de Processo Terapêutico, mas que ela denominara ATP ou Aprendizado de Troca de Afeto, principalmente com a pessoa que tantas e tantas vezes se vestiu de Beatriz para fazer que ela – Dante desesperada – fizesse a necessária travessia do Inferno para que um dia conseguisse alcançar – de alguma forma - o céu, a trégua, a normalidade.



E a outra se fazia de Beatriz e dizia-lhe: “ Sou Beatriz que envia-te ao que digo / de lugar venho a que voltar desejo /Conduz-me e faz-me estar contigo “



E era pela inteira confiança que depositava nela que atravessava, passo a passo, de mãos dadas, sempre juntas, lugares muito sombrios mas com a segurança de não estar mais sòzinha nessa trajetória abissal que durou 15 anos. Juntas tiraram todas as Hidras do fundo das cavernas e as deixaram paradas, na entrada coberta ainda por uma pesada sombra , para que pudessem, pacientemente e – fundamentalmente - juntas, olharem e analisarem uma por uma: Qual era o seu tamanho e o compararem ao dela, qual era a sua idade e local de nascimento, colocavam – uma a uma – na balança, para avaliarem o seu peso e, quando possível, descobriam o seu verdadeiro nome, olhavam juntas, uma a uma , cara a cara, para que ela soubesse que da mesma forma que todas elas a ameaçaram muito, muito tempo , agora eram elas – ela e sua Beatriz, sua Vestal, sua Estrela da manhã - que as estavam ameaçando , bastando que fizessem-nas darem um passo e sairem do que agora era apenas uma sombra – não mais uma caverna na qual elas a dominaram por completo, durante quinze anos, na terrível escuridão.



E foi realmente um trabalho de Hércules que lhes tomou – a ela e à sua incansável Beatriz ( ou Vestal ) entre dez e doze anos. Os três primeiros trilhara sòzinha, beirando o enlouquecimento.



Inúmeras e inúmeras vezes, quando – ao tentar trazer a Hidra para a porta da caverna – ela tinha pavor pela impressão de que ficasse muito mais forte do que ela, Beatriz a tomava no colo e cuidava dos seus ferimentos, tudo fazendo para reanimá-la, para não se deixasse desistir . Porque ela estava ali e já que estavam juntas a outra não se sentia mais sozinha e desamparada, pois ela reafirmava durante anos a confiança de que – juntas – elas iriam conseguir vencer Hidras e fantasmas e todos os monstros que achassem pelo caminho.



E o trabalho prosseguia. Dentro da floresta, as cavernas, na porta das cavernas as Hidras que descobriram e atraíram para a porta, ainda protegidas pela imutável sombra, pela ausência – nem que fosse bem pequeno, de algum raio de luz.



Até que um dia, sabendo do Hercúleo trabalho que realizam juntas, ela percebeu que precisava agora buscar a única coisa que acabaria, finalmente por liquidar as Hidras e isso seria um movimento que deveria executar sòzinha. Por mais que sua Vestal exaustivamente tentasse, não poderia ajudá-la com a luz dela própria , que era imensa. Haveria de ser ela mesma a buscar a sua própria luz, a luz que derrotaria para sempre todas as Hidras , que a faria recuperar realmente as suas próprias forças .



Esse foi o momento doloroso da necessária separação, uma vez que agora tinha que – sozinha -percorrer caminhos e caminhos infindáveis, em busca da minha própria luz. Só a sua própria luz poderia liquidar definitivamente com as Hidras das portas das cavernas.



De volta novamente à sua missão solitária , percorreu despenhadeiros e desertos, passando fome e sede, nadou contra caldalosos rios onde quase se afogava , invariàvelmente, aceitou entrar inferno adentro infinitas vezes porque sua Beatriz lhe ensinara que aquele era o atalho que a levaria ao Céu E Caronte enriqueceu às suas custas, às custas das infindáveis travessias.



Foi atacada sete vezes por monstros que não conhecia e contra os quais teve que lutar sozinha, no último quase que realmente padecendo, até que , ferida quase de morte – lançada ao chão – olhou que, ao lado dos seus infinitamente dolorosos ferimentos, havia um objeto que – embora sujo de seu sangue – era algo que a fascinava, algo que ela desconhecia. Pegou-o lentamente e – com as mãos ainda sujas de terra e sangue – colocou-o frente a seus olhos e viu, que – saída das imensas árvores da floresta , projetando no objeto que achara, acabava de encontrar a sua própria luz.



Embora exausta fìsicamente e psicològicamente, foi se revigorando ao descobrir que aquela luz – embora se projetando de fora, da enorme trajetória que percorreu, conseguira agora alcançar o seu coração, o centro de si mesma. Aquela era a sua própria luz.



Depois de atravessar o Inferno , realmente conseguiu chegar ao Céu. E ser recebida por Um Ser de Infinita Bondade , Caridade, Misericórdia, Amor e por inigualável e majestosa Luz que se difundia por tudo e por todos à sua volta num raio que parecia não ter fim. Convidou-a a entrar. E foi entrando, embevecida, sendo abraçada por muita gente que comemorava a sua chegada tão esperada, uma vez que já sabiam que ela estava perto, mas como muitas e muitas vezes ( ou quase sempre ) andava em círculos, não conseguia chegar.



E nesse lugar de infinita luz, das palavras suaves e alentadoras que aprendia, conseguia sentir aumentando nela, lentamente , a sua , a verdadeira e própria luz.



Quando , passado muito tempo no que lhe parecia uma colônia de refazimento de forças para o encontro da luz, sentiu-se realmente revigorada e dirijiu-se ao Mestre tão amado , tão querido, para pedir-lhe permissão para sair para uma última missão fora dali mas que voltaria muito em breve com ótimas notícias. No que ele não lhe impôs nenhuma resistência, sugerindo apenas que, para chegar ao lugar certo, seguisse sempre o caminho de sua própria Consciência. Que esse era o único e insubstituível caminho que a faria chegar onde tanto queria e que a faria voltar ao Céu , acompanhada pela Responsabilidade, pelas escadas da Evolução.



E saiu, quase que realmente fluando, nos flúidos que sentia alimentarem constantemente a sua luz para que ela não se perdesse pelo necessário retorno às reminiscentes cavernas, onde as Hidras, paradas e amedrontadas, esperavam por uma solução final.



E foi assim que – olhando nos olhos tirânicos de cada uma delas – ia abatendo-as uma a uma, apenas com o seu olhar , agora pleno da sua própria luz.



Acabado o trabalho de Hércules, olhou para o lado e não a viu. A sua Vestal, a sua Beatriz. Porque – com a infinita sensibilidade e generosidade que sempre a caracterizaram, ela sabia que aquele era um momento que devia ser vivido só por ela, para que ela mesma constatasse que não importava o tamanho, a idade ou os pesos de cada Hidra, porque sempre seriam abatidas agora que ela descobrira algo que sempre morara nela e que a dor apenas escondia e não a deixava ver: Que nenhuma Hidra, fantasma ou monstro poderia ser maior do que ela agora que tomava consciência da sua verdadeira Luz.



E agora era hora de voltar para o lugar da Luz, onde o Mestre e todos os irmãos que encontrara a esperavam para contar a Boa Nova. Nada mais a abateria se ela preservasse para sempre a luz que era só dela, conforme o Mestre amado lhe ensinara.



E agora, nesse Paraíso que demorara tanto a encontrar , reencontrara também o brilho, a vida, a auto-estima , a importância fundamental da caridade com amor, dentro de si mesma , capaz de fazer dos seus dias um movimento bumerangue de Amor, Alegria e Doação.



Mas dentro dela haverá também um lugar para sempre consolidado e construído durante tantos e tantos anos de luta que passaram juntas. Ela e Beatriz, Vestal ou o nome que queiram dar. E é também um espaço enorme, luminoso, cheio de generosidade, amor e proteção. É o espaço no seu coração onde para sempre estará a sua Vestal, a sua Beatriz que nunca a abandonou, que nunca a deixou sem colo e fez crescer a menininha assustada até o tamanho que pudesse derrotar as suas Hidras.,



E agora viveria para sempre naquele lugar paradisíaco, ouvindo a cada minuto as intruções do seu Mestre. Mas nunca esqueceria que foi com ela, com a sua Beatriz, que abriu todos os caminhos para que pudesse encontrar esse lugar tão luminoso, dentro e fora dela.



{8/22/2008}!

25.7.08






SUA MÃE ESTAVA CERTA


1971. O ano fervilhava dentro e fora dela. Dentro, glicerina pura. Primeiro ano de uma faculdade cujo vestibular resolvera fazer uma semana antes da prova, tendo passado em quarto lugar, o que certamente lhe deu um certo frisson no ego, uma vez que nem sequer estudara para ele.

Segundo, a perda da gravidez que – embora hoje lhe pareça uma perspectiva absurda – na época provocou uma dor profunda e a primeira manifestação de sua mediunidade intuitiva: Logo ao engravidar sabia que eram gêmeos e sabia também que não iam vingar. Tiro certo.

Terceiro, ao ouvir seu pai dizer ao inexpressivo marido que não apoiaria o desejo dela de se separar a não ser no caso de haver alguma violência física por parte dele, entendeu que, para começar a buscar o rumo certo da sua vida, precisava apanhar. E muito. Porque sem sanguinho saindo não dava substância concreta à agressão. Tudo foi providenciado e no final do ano já estava de novo morando na casa de seus pais, desquitada , com algumas pequenas cicatrizes que tivera que provocar para gerar – da parte do Juiz da Vara de Família que avaliara a denúncia de agressão física - a imediata separação de corpos.

Com um carro do ano que era o único bem que possuía , com a música que marcara todas as tardes negras da sua vida conjugal – Over the rainbown – sabia que agora estava livre para procurar o seu verdadeiro caminho, o seu potinho na ponta do arco-íris, de posse de seu livre-arbítrio.

Para o país, o período mais negro de sua História , com o General-Presidente-Médici, o mais truculento que o Brasil já tivera, com o DOI-CODE a dois passos do seu nariz, frente à rua em que morava e ela – ainda inteiramente alienada que era – nunca se deu conta de nada disso, até que um dia viu, ocupando o espaço inteiro da televisão de sua casa, que sua melhor amiga estava sendo procurada de forma contundente , em nome da Revolução de 64 e em prol da manutenção da “paz” no País.

Foi só aí que se deu conta – e ainda de forma muito frágil porque todos a mantinham numa redoma que só quebrou muito mais tarde, em 1973 - da perseguição sangrenta à juventude que tudo que queria era mudar o país, torná-lo livre daquela insuportável Ditadura Militar que – como disse antes – atravessava o seu período mais contundente. Uma juventude que marcou época pela sua maturidade e consciência do importante período que estavam passando, todos na minha mesma faixa etária, sendo que do lado deles a coragem, a bravura, o discernimento para tentar mudar os fatos e do lado dela alienada e estreita visão da vida e do mundo que seus pais lhe impuseram.

Até bem pouco tempo, lia todo e qualquer livro que se reportasse ao golpe militar no Brasil no ano de 1964 e no mundo inteiro – principalmente na França e aqui – em 1968, ano em que tivemos um menino de 18 anos como mártir da nossa Bandeira: a morte brutal do estudante André Luiz. E a cada livro que lia se sentia mais culpada pela sua alienação na época, abismada como passara ao largo de tudo isso.

Não resta a menor dúvida que tão mão-de-ferro quanto o General Médici era a mão-de-ferro-com-pelica de sua mãe que, para impedir que ela tomasse sequer conhecimento de tudo isso, arranjou dinheiro não sei de onde para a filhinha passear na Disney.

Durante muitos anos da sua vida se sentiu absolutamente imbecil pela absoluta alienação com que viveu esses anos e depois de tanto ler, de perceber o quanto a sua própria família estava envolvida nos porões da Ditadura ( Um tio, torturador do Exército, uma prima, promotora do SENIMAR, o órgão da Marinha considerado o mais violento de todos , um poço sem fundo dos cadáveres que lá jogavam depois de várias e várias sessões de tortura , quando o preso morria, por não suportar mais ) ,

Só que é muito estranha mesmo essa vida. Enquanto milhares de brasileiros-quase-meninos, no anos 60 e 70 perdiam a vida lutando por um ideal, seqüestrando embaixadores para trocar por prisioneiros da causa libertadora, voltemos – como num filme, ràpidamente- o olhar para o futuro que é o presente de hoje, e vemos as mesmas pessoas que lutavam pela liberdade altamente engajadas, agora , depois de lutas tão bonitas ( a luta pela anistia, pela saída dos generais, pela volta das eleições diretas , pelo impecheament do primeiro presidente eleito por voto direto não pelo proletariado mas pelas elites, que teve na oposição a candidatura da única pessoa no Brasil que teve como profissão “ candidato a presidente “ durante mais ou menos dez anos e que era a grande esperança daquela meninada de 68, nos seus dezoito anos e hoje com 40/50 anos, finalmente eleito , íamos agora ter o país que nós sonhamos, com os representantes massacrados da Revolução no poder , podendo agora colocar em prática o Brasil que tanto sonhávamos.

Mas infelizmente não foi bem isso que aconteceu ou está acontecendo. Os bravos e valentes guerrilheiros de 68 , já não tem mais a juventude de antes e as cabeças e barba grisalhas que hoje vemos deixaram também que seus ideais envelhecessem.

A minha amiga, que eu vi na televisão sendo obcessivamente procurada pelos órgãos de repressão, hoje tornou-se judia para poder casar com um milionário judeu e viver na mordomia. As pessoas que – de forma emocionante – foram exiladas em troca do seqüestrado Embaixador americano, hoje com imagens velhas e ideais mortos, ocupam todo o espaço da política Nacional e repetem , de forma inacreditável e absurdamente até pior, os quadros da antiga Ditadura.

Hoje não roubam vidas. Hoje roubam dinheiro público, das crianças mortas de fome e sem ensino, as verbas de saúde que nos envergonham ao serem mostrados na televisão a situação em que estão os hospitais desse país e uma série de falcatruas que parecem estar institualizadas no Brasil de hoje. Um país impune, onde o antigo ídolo virou presidente mas ficou cego porque tudo acontece debaixo do seu nariz – a mesa do Sr., José Dirceu por exemplo ( um dos exilados trocados pelo Embaixador Americano ) era ao seu lado, quase no seu colo mas ele diz não ter visto nada, coitado. Ficou cego mesmo e distribuiu sua cegueira para todo o Congresso Nacional porque aí fica tudo em casa, se esparramando na lama nacional que cobre um país que um dia, ou uns dias em que ela se culpava tanto por não ter se dado conta do que estava acontecendo no seu país, na juventude.

Hoje parece que só meia dúzia de pessoas são providas de visão como a visão raio-X do Super-Homem que consegue ver por debaixo das imensas camadas de lama que cobrem o país meninos que enfrentavam de corpo aberto o exército nacional em nome de duas coisas que tiraram do nosso dicionário : decência e ideologia. E mais no fundo ainda dessa lama vemos o cadáver de André Luiz, o único herói que um dia esse país já teve.

Obrigada, mamãe, ela adorou a Disney.


{7/25/2008}!

11.7.08










Rio, 11 de julho de 2008

Era o ano de 1963. O último ano de liberdade da cidadania no Brasil e o ano da minha terrível clausura.

Sempre amei minha mãe imensamente, e sempre tive muito medo da intuição que eu tinha que poderia perdê-la precocemente. E sempre achei muito estranho porque nunca minhas intuições falharam, desde menina. Com certeza Deus ouviu as minhas preces e a salvou quando foi violentamente atropelada numa noite de chuva torrencial na qual eu a esperava, inutilmente, na casa de meus avós, com o nariz encostado na vidraça e a intuição descendo em lágrimas no meu rosto.

Como era normal, mentiram-me e disseram que ela teve que fazer uma cirurgia às pressas e quando me levaram para visitá-la fiquei pensando porque colocariam uma armadura de gesso em todo tórax de alguém que fora simplesmente operado. A “operação” foi um atropelamento no qual ela não foi socorrida pelo motorista e que teve a sorte de ter sido na frente de um bar e as pessoas que assistiram correram para ajudá-la a se virar porque – como a rua estava cheia de água – ela ficara com o rosto na água e morreria afogada se não fosse o auxílio dessas pessoas a quem até hoje envio minhas melhores vibrações.

Isso foi em 1957.

E enquanto os concursos de Miss Brasil , sonhando em ser Miss Universo aconteciam, enquanto a Rádio Nacional ainda tinha o maior prestígio porque ainda eram muito poucos a ter televisão, enquanto os bondes – no carnaval – vinham cheios de foliões fantasiados , numa adorável e inocente alegria, enquanto Bat Masterson não só era um seriado de TV como uma música que todos sabiam de cor, enquanto “ O Morro dos Ventos Uivantes “, faziam todos chorarem depois do jantar, embora ficasse muito na casa dos meus avós paternos ( Na época não entendia porque. Devia continuar sem entender ) o amor e a preocupação por minha mãe era constante embora talvez não conseguisse passar isso para ela, talvez até pelos pequenos espaços de tempo que passávamos juntas.

Até os 11 anos, quando me controlar ainda era perfeitamente possível, nunca tivemos problemas. Estes só começaram em 1962, quando começaram também os primeiros namorados. Eu tinha na época 12 anos mas corpo de uma moça de 18 e a “ turma” da minha rua sempre namorava entre eles. E – naturalmente – isso aconteceu comigo. E foi aí que começou a rachadura entre mim e minha mãe que parecia achar que eu seria uma eterna menininha que ela podia controlar.

Desesperada com meus sumiços para as ruas mais escuras ( Era gozadíssimo: todos da rua se mobilizavam para me avisar antes que ela chegasse, visto que eram “pontos chaves”, onde todos namoravam ) e ameaçando me colocar num colégio interno caso esse início de vida de adolescente não se acalmasse. Em 1963 cumpriu a promessa.

Mesmo tendo que economizar muito, visto que na época era apenas datilógrafa e ganhava muito pouco ( do dinheiro do meu pai, eu nada sabia ) me colocou no melhor e mais caro Colégio de freiras: Sacre-Couer de Jesus onde só havia meninas riquíssimas e eu era a mais pobrinha. No meio do ano entrou a Cecília , tão dura quanto eu, e nos unimos por essa afinidade.

Era um colégio imenso, belíssimo, em plena Floresta da Tijuca mas nada disso me consolava. Escrevia na minha carteira da sala de estudos quantos dias faltavam para acabar o ano, quantos faltavam para acabar o mês e quantos faltavam para o fim-de-semana, uma vez que saíamos sábado de manhã e voltávamos segunda bem cedinho.

No entanto eu consegui nutrir uma certa simpatia pela madre Saad , que era como a diretora do colégio. Ela, ao mesmo tempo que era terrìvelmente rigorosa tinha também o seu lado engraçado, mais ameno, e todos os dias pela manhã, quando estávamos na sala de estudos, ela nos obrigava a falar bem alto: “ Como a vida é bela e como eu sou feliz”. Eu achava a vida horrenda porque estava ali e não era feliz coisa nenhuma. Mas de qualquer forma era obrigada a dizer.

Seja como for, nunca esqueci essa frase.

No meio do ano, tive que fazer, com urgência , uma operação de adenóides , na qual perdi muito sangue e – aproveitando que minha mãe estava preocupadíssima como o meu estado de saúde - fiz com que ela prometesse a Deus que se eu melhorasse ela me tiraria do colégio interno. Visto que – animada por essa idéia – fiquei boa logo, logo e cobrei o cumprimento da sua promessa.

E em 1964 – ano que marca o início dos anos de chumbo no Brasil – já estava eu de volta ao Pedro II, sentindo como se tivesse saído de um lugar muito , muito escuro, em que a solidão fazia um buraco no meu peito e eu – mesmo sem poder – tudo que queria fazer era chorar. Mas sempre lembrava da frase da Madre Saad, tentando sentir isso de verdade. Mas o ano de 1963 foi um ano em que a serpente cresceu dentro do ovo que só veio a se partir realmente em 1993, 30 anos depois ( Nos anos terminados em 3 eu deveria fazer um ano de sonoterapia. Não escapa um ) e a depressão acumulada em 43 anos veio , a princípio dizendo que era para ficar.

Até eu encontrar a Dra.Andréa, depois de ter passado por dois inoperantes psiquiatras, realmente ficou , mas com a Dra Andréa tudo passou a ser diferente. Lembrei-me de um livro chamado “ Nunca lhe prometi um jardim de rosas “ de Hannah Green que era uma história verídica que a menina, a princípio logo tachada de esquizofrênica, quando sentia que a vida e seus pais começavam a pesar nas suas costas, fugia rapidinho para o mundo de “Yr” , um mundo em preto e branco, um mundo sem cor e sem palavras e por lá ficava até se sentir mais segura para conseguir voltar. Anos se passaram , essa menina realmente sofreu muito, mas o encontro com uma excelente psiquiatra que soube tocar no seu mundo fez com que as crises passassem a ser raríssimas e que ela pudesse ter uma vida relativamente “ normal” ( nunca soube direito o que é isso.)

Contei todas essas histórias porque desde ontem tive um insight e compreendi o que a Madre Saad queria dizer. Saí , depois de 15 longos anos de um Yr desesperado , para a praia que com o seu céu todo azul e um sol lindo sobre a minha cabeça, e pela primeira vez, depois de todos esses 15 anos soltei bem alto o meu grito, para o Universo ouvir: “ COMO A VIDA É BELA E COMO EU SOU FELIZ “.

Obrigada Madre Saad por eu ter as palavras certas na hora certa para dizer o que a senhora sempre dizia.

A sensação que tenho ( pela PRIMEIRA vez nesses quase quinze anos ) é que eu também estou saindo REALMENTE do meu mundo de Yr. E consigo amar o mar, o céu, as flores, o infinito. E agradecer, primeiramente a Deus, de Amor, Caridade e Misericórdia, depois a Jesus, meu mestre amado e querido, depois a minha queridíssima casa abençoada de Rita de Cássia e Maria de Nazaré – que sem ela eu não teria conseguido – à minha Zoé, terapeuta queridíssima do meu coração, que acompanhou – nem de fora, acho que de dentro de mim ,esse mundo sombrio e terrível, durante mais de 10 anos. À Dra Andréa que com sua competência e sensibilidade soube tocar os pontos certos e mudar-lhes a rota, à minha tia – que , entre “ tapas e beijos” me deu o tempo todo sustentação moral e financeira para que eu pudesse um dia chegar aqui, ao Anjo que parece que só nasceu para cuidar de mim, a minha Denise, tão amada, tão querida, que me salvou de mim mesma 7 vezes e tenho certeza de que faria como Deus ensinou: Se for preciso faça 70 vezes 7. E ela faria. Ao Conrado que dormiu com seus um metro e oitenta num banquinho de um metro e meio no hospital, quando foi preciso, enfim, a todos os amigos que compreenderam que durante esses 14 eu não era mais a Vera alegre e esfuziante de antes, e sim uma presa dessa terrível doença que é a depressão e que nem mesmo assim , mesmo sabendo que eu não queria ver ninguém , passaram esses anos todos me mandando e-mails ( Denise e Lulu ), quando viam que eu melhorava um pouco, me telefonavam oferecendo sempre muita ajuda e muito carinho ( Cláudia, Maria Teresa, Leleca, meu querido Julinho que sempre que vinha de Berlim ficava um tempão comigo, Monica, Isolda, Lina e Regina com quem completo esse ano Bodas de Ouro de amizade ) enfim, a esses amigos maravilhosos que são o maior BEM que Deus me deu na Terra ( Fora os que já estão no plano celestial: Victor, Nilson, Tiaguinho, Reginaldo, Manequinho, D.Carlina, D.Raquel, meu avô Frederico ) e todos esses que – de alguma forma – me enviaram as melhores vibrações para que eu possa agora ir para a praia abrir meus braços e olhando aquele mar que eu adoro e sob o sol e o céu inteiramente azul dizer que nós vencemos , meus queridos amigos, e gritar bem alto para o Universo :
“Como a vida é bela e como eu sou feliz !!!!! “




{7/11/2008}!

10.6.08







Sempre que podia, olhava o mar. Amava o mar. Deixava-se perder na linha do horizonte, a linha que liga o céu ao mar.

Sempre que podia, olhava o céu, amava o céu. Deixava-se perder naquele azul infinitamente claro que só escurecia quando encontrava o mar, a linha que liga o céu ao mar.

Mas tinha um motivo mais forte ainda para amar o mar. Porque o mar na verdade é um só, muda apenas de nome quando em pompas de Oceano. Mas mais importante que nomes é que aquele era o mesmo mar que ele pisava , embora estivesse bem longe dali. Um dia , quem sabe, aquela ondinha final que vinha se entregar à areia, acaso não o tocara, não o banhara, não se permitira que mergulhasse nela com seu corpo robusto e mãos de David.

Por isso sempre se emocionava quando via o céu , quando ouvia e sentia o balanço do mar. Tudo lhe parecia um grande abraço. Dela para ele, do céu para o mar.

Hoje ela ainda olha o mar. Ela ainda ama o mar. Mas hoje, mais do que amar o mar, amar o céu, ela ama a linha do horizonte: a linha que liga o céu ao mar. Porque, hoje, ele não mais está ligado a ela pelo mar. Mas estreitamente abraçado a ela pelo céu, que deita ao mar.

Quando ela se for, as cinzas de sua cremação serão jogadas na ponta da pedra do Morro Dois Irmãos. Aquela mesma pedra que a aconselhava todas as manhãs, conforme a força com que vinha o mar. Se o mar explodisse em cascatas de onda, ela sabia que deveria ser mais firma durante aquele dia, ser firme, confiante. Mas se o mar, complascente, contornasse o final da pedra ( o que faria dar no mesmo lugar , só que mais plàcidamente ) ela saberia que durante esse dia deveria ser mais calma , mais tolerante, ter mais jogo de cintura. E foi por essa intimidade que ela pediu a uma pessoa muito querida que jogasse suas cinzas exatamente ali, no pedaço que ela fizera seu, enquanto estivesse aqui. Inicialmente as cinzas se tornariam mar e depois de muitas marolas, se tornariam Oceano.

E quando seu corpo fizer essa trajetória , seu espírito imortal já terá sido cortado em seu cordão de prata, desvencilhando-a desse corpo, que usou como a casa de seu Espírito durante tantos anos. Mas agora, enquanto seu corpo se entrega ao mar, seu Espírito Imortal se entrega ao céu, ao Plano Espiritual.
E não só sabe que ele estará lá, à sua espera , como será ele a recebê-la para depois de um abraço infinito, levá-la para encontrar os seus.

As cinzas do seu corpo no mar, o seu Espírito Imortal no azul celeste. E tudo isso só vai acontecer porque foi planejado, foi escolhido. Escolhido por mim. Escolhido por ele. Mas não na Terra, não aqui. E agora , despojados dos seus corpos físicos, passearão seus perispíritos de mãos dadas, pelo céu, pelo mar, por todos os espaços que se fizerem infinitos. Tão infinito quanto a espera vivida por eles e que, por vários motivos , não era para ser vivida aqui. Ao menos não agora, nessa encarnação. Mas livres do seu corpo material nada deterá o amor no infinito.



{6/10/2008}!

11.4.08






EDELWEISS

Acordara à uma hora da manhã, como quase todas as noites. E acordaria, provàvelmente às três. Mas saber que dormiria para que chegasse logo o novo dia era uma das novas sensações agradáveis que vinha sentindo durante a semana depois de um longo, muito longo tempo de insônia angustiante, de noites sem ao menos uma estrela que lhe prometesse o sol de um novo dia.

Era madrugada de uma sexta-feira e essas sensações – como diria uma amiga muito querida – de sintonia muito, muito fina - iam pouco a pouco se chegando a ela, como alguém que há muito tempo vem se esforçando na subida dos Alpes e começa pouco a pouco a enxergar a sua primeira Edelweiss.

Uma Edelweiss tão delicada, tão desconhecida para ela , que chega a ter medo de se aproximar mais para tocá-la , para se conscientizar que tem direito de tocá-la porque se esforçou muito para chegar até lá, escorregou perigosamente nas encostas ao menos umas sete vezes mas agora – com medo ou não de acreditar – podia se apropriar do encantamento de sentir a sua nova e singularíssima Edelweiss pois só ela sabia o quanto fora difícil chegar até lá.

E a sensação de felicidade que sentia, era absolutamente diferente de qualquer outro tipo que já houvesse sentido. Era uma felicidade que parecia pequena , do tamanho da Edelweiss mas que o valor que tinha não vinha do tamanho ou de qualquer outro tipo de qualificação que ela pensasse. Era uma felicidade que vinha apenas da Edelweiss. Como se aquela flor singela contivesse todo o poder do mundo por ser – ela , apenas ela – a sua felicidade.

Talvez pudesse – pelos cansados caminhos da razão – pensar que aquele novo tipo de valoração vinha do imenso esforço que fizera, das sete graves escorregadias que dera no percurso, aprendendo , após cada uma delas a encaixar os pés de maneira pouco a pouco mais segura, até que veio a última escorregada e ela realmente quase caiu. Dessa saiu com marcas no corpo mas dessa saiu também com uma certeza interna , renovada , que essas marcas lhe ensinariam de forma bem consistente atenção nos detalhes, para não mais correr o risco de cair.

Mas não estava mais interessada nessas explicações racionais de um sentimento novo. Sempre tinha sido assim. Começava a sentir alguma coisa nova e queria logo entender, deduzir, reduzir a um conceito o que na verdade era muito maior se se permitisse ficar apenas na sensação, sem se defender do sentimento.

Por isso agora apenas queria olhar e sentir a estranha e sublime beleza daquela Edelweiss. Se encharcar desse sentimento que chegara silenciosamente , pegando-a de surpresa para que não caísse na velha armadilha de deixar de sentir com o coração e levar imediatamente o sentimento para a cabeça. O que já não permitia que fosse apenas um sentimento.

E assim – no alto daquele cume , sentindo a infinita e indefinível – felizmente – beleza daquela Edelweiss, começou a rir como uma criança ri, porque não fica avaliando porque está rindo. Está rindo porque está sentindo uma sensação inteiramente nova, que se define apenas no fato de estar com vontade de rir.

E seu riso foi se espalhando pelo ar como o orvalho se espalha pelas madrugadas. Silenciosamente, com uma naturalidade tão grande que na maioria das vezes as pessoas acordam bem cedo mas saem apressadas e não veem o brilho de cada gotinha que apenas fez o seu papel de hidratar as flores na madrugada para que elas possam acordar mais bonitas e mais felizes.

E assim preparou-se para o retorno à vida cotidiana, a descida ao pé da serra. E não precisou arrancar a Edelweiss para levá-la consigo. Ela já abrira um espaço enorme no seu coração e parecia que agora a sua vida consistiria apenas em cultivá-lo. Em reverenciá-lo todos os dias com as suas próprias gotas de orvalho, silenciosamente.

E quando descesse, nada teria de extraordinário para contar. As pessoas – que certamente também já encontraram a sua Edelweiss – saberiam identificar-se com ela pelo sorriso , pelo sorriso novo que acabara de aprender. Caso contrário, teriam que continuar procurando elas mesmas a sua própria Edelweiss , num caminho que não se repete e é extremamente pessoal. E ao mesmo tempo – com certeza – mais que pessoal. Imortal.

{4/11/2008}!

19.3.08







O SEGREDO DO BARALHO CONGELADO

Hoje. Cinco horas da manhã. Abri os olhos não porque estivesse dormindo mas por cansaço de ficar fingindo que dormia durante tantas horas. Abri os olhos e ela estava ali, inteira, ocupando todo meu espaço visual para que eu não corresse o risco de dizer que não a vi.

Percebi que era uma fila. Ela era a primeira, grande, poderosa, encadeadora de tudo o que vinha atrás como um exército rigoroso e obediente às suas determinações.

Nunca a quiz ver mas hoje ela se postava diante de mim , impondo-me um reconhecimento arbitrário, inabalável.

Tentei fechar de novo os olhos para não vê-la. Nem a ela nem àquela interminável fila fria como a de quartel às cinco da manhã. Meus olhos não fechavam. Uma vez abertos, com aquilo à minha frente, não havia mais como fugir. Nem prá dentro nem prá fora.Nem prá cima nem prá baixo. Restava-me apenas ela, como sempre foi e eu não via. Porque achava outros olhos que não queriam ver e a gente ficava ali, trocando abobrinhas. Mas agora era o olhar definitivo e gélido, como devem ser as Antárticas e o pico dos Alpes quando estão com trinta graus abaixo de zero.

Não havia agasalho nenhum para aquele olhar.

Percebi que toda a fila estava congelada talvez porque todos sempre estivessem estado ali , naquela ordem, sob o comando da Grande Dama Gelada que eu sempre me recusei a ver.

Era como se tivesse passado a vida vendo a fila aos pedacinhos. Ora uma depressão aqui, ora uma dor-de-cabeça ali, ora uma coluna que até o cox era quebrado aqui, ora uns comprimidos ali, ora duas giletes afiadas aqui,ora dois fetos mortos ali, ora uma violação aqui, ora uma procura do amor ali, ora uma paixão tresloucada aqui, ora garrafas e garrafas de uísque ali, ora quarenta anos de cigarro aqui,ora amigos que morriam ali, ora amizadas que bruscamente se degolavam aqui, ora os irmãos que tanto quisera e não vieram ali, ora a mãe sendo empurrada pelo caminhão para debaixo de outro caminhão aqui, ora o pai completamente ausente ali, ora a constante dor lombar aqui, ora a busca desesperada de Deus ali, ora o mundo que não podia mudar aqui, ora as noites bebendo e escrevendo para dar um tom glamouroso ali, ora as vezes que fora levada em casa por não ficar em pé nas própria pernas aqui, ora o pedido para que seu boneco Fred - assim como Pinóchio - virasse gente ali, ora as horas que passava jogando pingue-pongue no espelho aqui, ora pulando sozinha no seu quarto amarelinha porque até os oito anos não tinha amigas ali, ora as várias ambulâncias que a salvaram de vários comprimidos que tomara aqui, ora o inacreditável sangue que se coagulava no segundo seguinte ao corte e ficava com a visão macabra de uma cabeleira sanguínea saindo dos seus pulsos ali e a fila ia continuando até se perder de vista naquele lugar estranho, naquele lugar inóspito, com aquela coisa que comandava tudo à minha frente.Silenciosa. Muda.

Até que passou correndo o Coelho do mundo de Alice e disse: Quem é essa daqui que comanda essa fila inútil que atrapalha o meu caminho? Saia da frente, senhora Solidão, pois estou atrasado, estou atrasado para o chá de cicuta da Rainha. E fez o que eu nunca consegui fazer em toda a minha vida. Derrubou aquela solidão enorme à minha frete, que por sua vez foi derrubando o resto como um castelo de cartas. Cheguei com o coelho a tempo no chá de cicuta da Rainha.
{3/19/2008}!

20.2.08



A VOLTA

Voltei. Nao sei ao certo quem ou de onde. Mas voltei. Nao para procurar a de antes, a outra. Acho que - felizmente - essa se foi de vez. Porque uma coisa é você colocar alguém para dormir por uma, duas horas ou para sempre. E outra é ter a frieza de calcular tudo nos mínimos detalhes para que pudesse - deliberadamente - danificar a casa que Deus lhe deu para o seu espírito morar. Danificar com dor, firmeza, determinação. Decididamente essa foi uma atitude nova, lamentável . Doentia. Mas como o inferno tem a sua filial por aqui mesmo e estou cansada de dizer que depressão é doença mesmo, não é frescura, nada como um dia e uma noite numa UTI , gélida como os pólos terrestres , numa solidão de fuga impossível e com um pobre senhor de uns trezentos e poucos anos , atrás da cortina que dividia os leitos, insistindo dia e noite numa performance sexual que se acontecesse o mataria, pois seu coração não aguentaria isso. Pelo menos eu não aguentava mais.

Meu lindo e paciente dr. Wal - conhecido já de outras façanhas - a princípio me informara não haver problema algum com a CASSI. Que no dia seguinte eu iria ocupar o primeiro quarto que vagasse. Mas eu não queria um quarto. Eu queria a minha casa, a minha Tatie, o meu pequeno mundo de volta. Mas o gerente da filial do inferno daqui da terra passou-me a conta do meu gesto absurdo e tive que me calar. Ou melhor: nem comecei a falar, muito também por falta de forças.

Esse foi com certeza o mais longo dos meus dias. E os fantasminhas que me visitaram não eram os dos meus amiguinhos do outro plano. Eram figuras muito esquisitas que me acariciavam como se para tomar posse definitiva do que era a casa que Deus me emprestou para eu pousar o meu angustiado espírito, até o fim desta e o início da próxima viagem. E meu corpo , talvez por estar um tanto danificado pelo estúpido momento da crise ( agora a depressão é diferente. Antes ficava dois, tres meses me largando na cama chorando o dia inteiro e agora passa como um furacão , não demora nem 3 dias mas o estrago que produz é letal. Frio. Abissal.

E foi num momento desses de quase total desistência que me informam que eu iria embora. A Cassi não autorizara o segundo dia de internação mas poderia em um segundo - caso fosse do meu interesse - me transferir para uma casa de saúde para doentes mentais, em Jacarepaguá. Certamente lá me ministrariam o tratamento correto e eu ficaria calminha, calminha.

E como num filme girado numa velocidade descomunal, já me vi na camisa de força sendo levada para tomar o choque elétrico do dia, antes do café da manhã, para que pudesse ter um dia bem pacificado e não incomodasse a dor de estômago do Napoleão nem ameaçasse raspar os bigodes de Hitler.

Já misturando ficção com realidade, achei por bem sentar-me na cadeira que me ofereciam , permitir que a Denise se responsabilizasse pela minha saída à revelia, visto que o dr. Wal não poderia me dar alta no estado em que estava. E mais quinze minutos ali acabariam por arrebentar ainda mais a minha destroçada conta bancária.

E pela sétima vez , lá fui eu embora com a Denise, me comprometendo a ficar na casa dela até chamar a minha " babá" de volta ( Gláucia ) porque maluco não pode ficar sòzinho.

E para completar as rachaduras que produzi no meu pulso, a Denise me cede gentilmente a sua cama para eu poder dormir melhor. Eu e o Brutus, o Lhasa Apso "doentinho" ( ninguém nunca disse isso para ele ) que não pode ser incomodado no seu sono que tira a metade da nossa carinha.

E numa hora qualquer das infinitas que acordo durante a noite ( tanto que eis-me eu aqui, às quatro horas da manhã ) ao olhar para o lado vejo aquele bebê que dorme de abajur na cabeça porque é todo ferrado mas que permite perfeitamente que os dentes cumpram a sua função. Levei um susto tão grande que o resultado foi que me estatelei direto da cama para o chão, como se fosse um ovo frito virado na frigideira. Resultado: O meu aspecto físico é mais ou menos de um sobrevivente da guerra no Oriente Médio. Isso sem falar nas dores que generosamente se espalham para todo lado da casinha que nem minha é e sim de Deus. Além de maluca é irresponsável, essa nova criatura.

Voltei. Quem , é outra conversa. O tempo nos mostrará. Ou como diria Caetano: " - Ou não "
{2/20/2008}!

11.2.08

CORRIGINDO CINCO TERRÍVEIS INJUSTIÇAS DO TEXTO ANTERIOR


Decididamente além desses remédios atuarem como verdadeiros ratinhos devorando meus neurônios, o estado totalmente diferente que fiquei depois do Encontro de Carnaval ainda não me fizeram pousar definitiva no planeta terra, a não ser para lembrar, na lata, de que esse é um planetinha de provas e expiações e é para tentar conseguir tudo que ouvi naqueles três dias que Deus em sua infinita Misericórdia me deu vida de gato ( Sete. Estou na última ) e eu já volto além de me deparar com as minhas maiores dificuldades comentendo injustiças sem mais tamanho.

Quero me retratar, me ajoelhar, suplicar, passo máquina zero na cabeça por ter esquecido de cinco amigos extremamente queridos mas como estamos juntos na maioria das vezes apenas na alma e no coração ( e eu ainda estou fazendo contato com o planeta terra ) fiz a enorme ingratidão de esquecer de citá-los e jamais me perdoarei por isso . Se for mãe de algum na próxima encarnação prometo jamais fazê-los comer jiló nem tomar xarope amargo.

Quero citar aqui em letras maiúsculas , a LINA , a primeira amiga que tive na vida e que esse ano completamos 50 anos de história e que sempre está por perto , sondando se eu preciso de alguma coisa, sem no entanto me pressionar. Uma pessoa generosíssima , de uma bondade e caridade imensas, o meu primeiro Fred que virou gente e que eu amo como a uma verdadeira irmã. Mas ela sabe que sou um Lobo da Estepe e respeita isso como pode ser respeitado um conhecimento de alguém que está com o outro há 50 anos, mesmo que às vezes pelas bordas.

O meu fofíssimo QI 1000 , HERALDO, que mesmo morando na Austrália, temos uma sintonia tão doida que nós dois resolvemos nem mais nos impressionarmos. Como posso ter esquecido 32 anos de amizade com as mais lindas covinhas que já vi na minha vida e a cabecinha mais louca e inteligente que Deus colocou na terra com o privilégio de não ser chato?

E a minha bonequinha de bolso IGNES FURIATI, a minha eterna IG , 38 anos de amizade , alguns deles distantes pelas coisas da vida mas jamais indiferentes, com uma cumplicidade sublime , de um olhar que parece ao mesmo tempo de bruxa, querendo te desvendar, ao mesmo tempo de um amor tão infinito que sobra amor pra todo lado? Que orgulho que eu tenho da nossa amizade , minha pequena ! Quem a mandou mesmo ir morar em São João Nepomuceno?

A LÉA, que mais que PENTEADO é irmã do Victor e só isso a credenciaria com o meu amor eterno mas é uma mulher do cacete, parece um camaleão, conforme as necessidades da vida e das suas próprias necessidades. Mas também não mora aqui. Mora em Santo André, Bahia , na casinha linda que o meu querido VICTOR morava e que agora é dela por direito e certamente por escolha dele lá de cima, no plano que estiver. Me orgulho de ser sua irmã, minha LELECA querida e tenho por você a mais profunda admiração. Às vezes acho que você com 99 anos ainda vai estar inventando alguma novidade para fazer.

E a MARIA TERESA, bicho brabo pra danar . Agora está com ódio de mim e nunca mais quer me ver. Estou esperando para saber se esse nunca mais vai ser até essa ou até a próxima encarnação. Porque ninguém briga e se ama tanto por 25 anos pra fechar o livro em branco. Não tenho a menor pressa. Temos toda a eternidade para resolvermos essas questões malucas que você inventa só pra ter o que fazer, só prá ficar brigando sozinha. Ah, como esse BB faz falta ... Quem diria , hein?

Teria mais duas pessoas para citar mas não saberia o que falar delas . Mas vou pelo menos citar os nomes: Maria Celeste e Erly . Entrego a Deus a nossa história pois ele saberá o que fazer com elas antes de eu fazer mais um estrago.

Ué...Será que eu sou boa nisso????

{2/11/2008}!

10.2.08

O PRIMEIRO DIA DE UM NOVO TEMPO

Quando nos mudamos para esse apartamento na Rita Ludolf, éramos ao todo cinco pessoas fixas e umas duas avulsas, ou de fim-de-semana ou de companhia eventual para d.Carlina. Enfim, 7 adultos e 4 Lhasa Apso. O que significa dizer que não havia um só minuto de silêncio. O que alterava era a altura do som , que asseguro dizer que era de alto para cima. Um falava, o outro retrucava, os cachorros latiam, a Net gargalhava, a d. Carlina reclamava, a Denise gritava , a Bernardete dava suas risadinhas e eu calava, tentando dormir.

Mas ao mesmo tempo que estranhava essa balbúrdia, uma vez que morava antes sozinha há muito anos, confesso que gostava dessa confusão doméstica com cheiro de café e pão fresco da Rio Lisboa.

Às 7,30 a Denise saía , os cachorros se acalmavam desde já esperando a sua volta, lá pelas 16, 30 , e a casa ia aos poucos se acalmando.

Por volta das 16 horas, parecia que toda a casa se arrumava para esperar a Denise chegar, como eu esperava , ansiosa todos os dias, a chegada de minha mãe.

Os cachorros se amontoavam com os 4 focinhos debaixo da porta de serviço, por onde ela entraria , eu e d. Carlina abríamos a porta do nosso quarto e quando ela chegava a balbúrdia da manhã começava toda de novo, para comemorar sua chegada. Mesmo indo dormir quase em seguida ( ou ao menos me recolher ) , gostava daquela hora, daquela espera, daquela alegria. Me dava uma sensação de pertencer a alguma coisa. Sensação mais lunar é impossível.

E a memória dessa espera parece ter ficado grudada na minha pele. Ainda hoje, quando moramos apenas eu e a Tatie , minha querida cachorrinha, todo final de tarde ainda acho que a Denise vai chegar. Ainda acho que vai ser aquela bagunça. Ainda acho que não é daqui esse silêncio.

Não olho mais meus trânsitos em Astrologia mas olho a Revolução Solar que acho incrível. E em mais um ano ela não me mentiu. Meu cotidiano vai realmente passar por um pente fino , separar o trigo do joio e do pouco trigo que restar farei o pão que alimentará meu corpo e meu espírito. Tudo na sua medida certa, no seu tempo certo, na sua dor exata.

Nada que quem já doeu tanto não possa – na verdade- suportar doer de novo .
{2/10/2008}!


A SÉTIMA E ÚLTIMA VIDA DE UM GATO

Desde algum tempo, quando meus grandes amigos começaram a morrer , os carvalhos que plantei há anos e anos e que me acolheram tantas vezes debaixo de suas frondosas folhagens quando eu pedia socorro, eu percebi que ia chegar um tempo em que a solidão total e absoluta me seria inevitável. Não se plantam carvalhos frondosos em 3 ou 4 anos. É preciso ao menos 10 para sua robustez aparecer. E cada amigo que morria, eu ficava , naquele lado, exposta ao sol, queimando , queimando até que a dor fosse tanta que eu nem sentia mais.

E a maioria morreu. E eu já estava quase esturricando. Ficaram a Denise, o Julinho, a Cláudia e o Conrado. O Julinho em Berlim, a Cláudia em Penedo, o Conrado às voltas com seus pacientes, seus estudos, sua constante correria. E a Denise . A Denise que eu não mais via. Porque bastava que nos aproximássemos para que ela começasse um duelo em que precisava sempre vencer, sempre ter razão em tudo, ostentar a sua força, o seu poder. Com isso venho concluindo que na verdade não tenho amigo algum. A solidão que tanto temia chegou há muito e eu, de tão carente que sou, optei por não querer ver.

Mas desde que voltei do Encontro de Carnaval, parece que as pessoas estão se vomitando da minha vida sem que eu faça sequer um movimento. E elas se vão. Se vomitando, se vomitando, se vomitando. Até que , ao contrário do normal, eu enjoei. Já que estão todas vomitadas , só me resta assumir a minha nova solidão e aprender o que fazer com ela. Morrer não vou mais. Porque a cada vez que vomito um homem parece que engulo uma parte de Deus. Portanto eu não estou sòzinha. Nunca ninguém me socorreu de verdade para que eu não possa sobreviver sem ela. A Denise me viu passar mal dois anos ao seu lado como se fosse um filme passando ao largo. E agora, depois que nos separamos , inventou não sei de onde que quer me ajudar. Se quando morávamos em quartos ao lado nunca me prestou uma ajuda só que fosse, agora que mora a kilômetros fica bonita a oferta, não?

Sendo assim, hoje estou viajando para a terra do Não Sei Onde. Não levo mala, lembranças, nem o menor vestígio de alguma recordação. Começo - como os gatos - a minha sétima vida. E vou tratar de aproveitá-la porque provavelmente é a última. E estou entrando num nevoeiro onde não reconheço ninguém. Nenhum traço. Melhor assim. Deixei a memória e todos os sentimentos ligados a ela na portaria e entro nua de corpo e de alma nesse nevoeiro sem endereço, sem destino, sem telefone. Mas nem por isso deixo de ser um espírito imortal que encontrará o que deixou na portaria - espero que em estágios mais adiantados do que agora - em alguma esquina da eternidade.
Que assim possa ser.
{2/10/2008}!




PRIMEIRA PROVA: NOTA ZERO

Acordei quarta-feira de cinzas com a sensação que as crianças devem sentir quando fazem primeira comunhão: Alegres, felizes mas tomando conta para que não recaiam no erro de nada do que aprenderam.

Eu não discuto com Deus ( já não discutia antes ), submeto-me inteiramente à sua ordem que é infinitamente maior do que a minha mas tem horas que eu confesso que tenho vontade de sentar num banquinho e pedir que ele sente comigo para lhe perguntar umas coisinhas, entre elas, a que se refere ao que aconteceu na quarta-feira à tarde.

A Gláucia veio trabalhar ( chegou 2 horas antes, o que já achei esquisito ) , fui para a palestra no Rita e na metade da palestra e eu comecei a sentir uma certa dor nos rins, como quando estava com a tal infecção urinária. Já tinha sentido outros sintomas antes mas não quis acreditar. Mas como a dor começou a aumentar , saí na metade da palestra e liguei para a Denise e pedi-lhe que ficasse insistindo com o telefone do Julinho que devia estar dormindo e não acordava de jeito nenhum e pedir que ele fosse me encontrar no prontocor ( O Conrado sugeriu que eu comprasse umas cotas de lá ) porque eu estava passando mal.

Peguei um táxi e no caminho a dor não só aumentava como se alastrava para a frente toda e refletia na parte de trás das pernas, dificultando-me andar.

Cheguei no Prontocor e vi aquelas carinhas mais do que conhecidas que devem ter pensado: " - Lá vem ela de novo..." e fui imediatamente conduzida a uma das salinhas da emergência. Relatei o caso ( são tantos casos que até me confundo ) da internação em função da infecção urinária há coisa de uns dois meses atrás , que estava sentindo de novo todos os sintomas e inclusive outros mais e ela me disse não restar a menor dúvida que a infecção tinha voltado. Ela iria me dar uma injeção de Tramal ( acho que é esse o nome ) na barriga, a dor ia passar mas eu deveria tomar o Antibiótico que ela me receitaria até o final e depois procurar a minha ginecologista para pesquisar o porque dessa repetição infecciosa.

Logo depois o Julinho chegou, voltamos no mesmo táxi e enquanto ele comprava umas coisas , eu comprava o Antibiótico e o outro remédio na farmácia, para adiantar.

Nisso toca o celular. Eu atendo. Era minha tia totalmente histérica, aos berros, dizendo: " - Você está no prontocor, Vera Lucia? ( Eu ODEIO ser chamada de Vera Lucia ) Você tanto fez, tanto fez que conseguiu , não é ? " E não parava de gritar no meu ouvido que há poucas horas atrás só ouvia palavras de fé , de amor , de confiança em Deus. E o pior - como eu sou lenta - é que eu não via sentido no que ela gritava. Até que entendi tudo. Ela deve ter ligado para a Gláucia, a Gláucia disse que eu fui pro prontocor, já devia ter dito antes da resina que foi passada na casa e ela achou que eu tinha sido intoxicada pela resina e já estava , no mínimo, sendo cremada. Só que - louca como é - não parava de gritar, não me deu chance de falar e ainda bateu o telefone na minha cara.

Aí é que Deus fez comigo a prova que acho que se repetir um milhão de vezes, um milhão de vezes tiro zero. Eu passei a minha vida toda lutando para fazer prevalecer os valores que aprendi a custa de muitas dores, muita dificuldade, muito sofrimento, e agora era uma pessoa responsável, séria ( até demais ) , com um carácter irrepreensível, mas uma pessoa correta . Disso eu tenho plena certeza. E para chegar a isso tive que lutar com muitos dragões , inclusive com o que mais amava, que era minha mãe. E agora, aos 58 anos de idade, se nunca permiti que alguém mandasse na minha vida - só Deus - não iria ser porque ela pagava a acumpuntura, a RPG e a empregada - que na verdade funcionava como uma espiã dela em minha casa - que eu iria permitir esse absurdo, essa invasão, esse tom em me tomar satisfações sobre a minha vida.

Liguei imediatamente de volta para ela e disse que o dinheiro que era daquela espírito que deve estar penando porque abandonou as suas filhas aos 10 e 7 anos ( a de 7 é minha tia ,a qual estamos nos referindo. A outra era minha mãe, uma vencedora na vida. Mas isso é uma outra história ) porque a mulher com que queria casar depois que minha avó morreu exigiu isso como principal condição para o casamento , esse dinheiro - que por ser Almirante deixava eternamente como pensão para as filhas mulheres e que minha mãe havia implorado que ela me repassasse depois de sua morte, esse eu queria. Mas nem um tostão a mais. Porque a tonta aqui estava toda emocionada com a generosidade dela - que nunca foi afeita a isso e sim extremamente apegada ao dinheiro - que nada mais era do que formas de me controlar ao pagar as tres coisas que citei, podia quitar esse mes esses profissionais e nosso vínculo parava aqui. Todos os vinculos.

Liguei a um por um para dar essa satisfação ( a Gláucia super sem graça mas também com raiva porque havia contraído dívidas contando com o pagamento do mes que vem ) , pro Ramon, que minha tia já conseguiu também envolver no seu manto de coitadinha e vai vir aqui segunda feira para tentar me convencer a mudar de idéia , o que é tempo perdido ( não totalmente porque tenho que lhe pagar a metade do mes de fevereiro, que na realidade nem existiu ) . Quanto ao Ramon eu lamento muito, porque não só gostava do trabalho dele como dávamos boas risadas juntos. E da Thatiana também , que já estava conseguindo dar um contorno à minha coluna.

Mas para Deus o acaso não existe. Tudo só acontece na hora que tem que ser. E se ele me deu essa prova como a primeira, sabendo de antemão que eu seria reprovada , como serei reprovada em todas as provas que envolvam a minha tia ( não na de lhe prestar socorro na hora que precisar de mim, é claro ) , foi na verdade para testar se eu desistiria ou não dos projetos dos quais saí tão embuída no fim do terceiro dia do curso.

É claro que eu não desisti. Posso errar mais de mil vezes mas vou continuar tentando. Uma eu vou acertar. Simplesmente por esse é o meu maior e único objetivo na vida e eu sei que eu vou chegar lá, eu sei que vai dar certo. E como diz nosso Presidente do Rita, o sr. Ricardo Bicudo, " Já deu ". É só continuar a caminhar.
{2/10/2008}!

6.2.08



ÚLTIMO DIA DO ENCONTRO DE CARNAVAL E O PRIMEIRO DO ENCONTRO DO MEU CAMINHO


Acordei hoje, quarta-feira de cinzas, meio tonta ainda, com a quantidade de informações que recebi, que troquei nos últimos tres dias nesse maravilhoso encontro. Mas era como se tivesse uma coisa dentro de mim querendo explodir e eu não acessava a ela. Não era uma sensação ruim. Pelo contrário. Parecia trazer encoberta um tipo de alegria que eu nunca sentira antes, talvez por isso o medo. Até que - de uma hora para outra, num verdadeiro insight - descobri que esses tres dias desvenderam para mim o mistério do porque nunca tive sucesso - pela infinita Misericórdia de Deus - em nenhuma das 5 tentativas de suicídio que em pequenas crises eu cometi. Era como se Deus pegasse minha mão ,e dissesse: "- Vamos voltar, menina teimosa. Por enquanto você não tem nada a fazer aqui e muito menos no andar de baixo. Mas tem muito ainda a fazer na terra. Tenha paciência , você já está no caminho. Breve, breve, entenderá ..." E docemente me pousasse de novo na terra pela sexta vez. Uma pelo nascimento e outras 5 pela Misericórdia de Deus. Mas relembrando tudo o que foi dito na riquíssima aula de ontem com a Vânia ( acho ser esse o nome dela. Se não for, me desculpe, é que os remédios são verdadeiros ratinhos comendo a minha memória ) . Mas vamos por partes.

Exercitando a minha fé em Deus, nem gel passei na cabeça, certa de que não teria dor-de-cabeça com tantos fluidos positivos acumulados ali. E assim estava sendo até quando alguém puxa um assunto sobre o que fazer com um filho ou um amigo que se envolve com drogas, o que devemos fazer, etc. Aí, imediatamente lembrei do Reginaldo, o meu boleirinho, o meu querido amigo, meu compadre, meu velho companheiro que lastimavelmente escolheu e morreu nesse caminho. Foi aí que me deu uma enorme vontade de dar um depoimento sobre o que acontecera com ele mas minha mão não subia. Por mais que eu fizesse esforço, não conseguia. O que consegui foi uma baita dor de cabeça, uma tonteira enorme , a ponto do fiscal da turma chegar até mim e me levar para tomar um passe lá embaixo, com uma equipe já preparada para esses casos. Melhorei muito depois do passe mas assim que cheguei na sala falei que queria dar o meu depoimento sobre o que aconteceu com meu amigo.

Quando seu pai morreu, deixou uma verdadeira fortuna para ele e foi aí que tudo começou. Ele mergulhou de cabeça na cocaína, dizendo que estava formando um Império. Eu acho que havia tanta dor na sua vida que ele não queria ver que fez um pacote de tudo e resolveu colocar tudo nos pacotinhos de pó.

Lembrei-me que um dia,( já depois de ter sido abandonado por todos seus velhos amigos que o adoravam ) ao ver sua pele já parecendo pele de jacaré, descascando toda, de um branco desbotado, perguntei-lhe por que ele não tentava - ao menos por um tempo - uma internação , para se desintoxicar. Ele respondeu que por enquanto não mas o dia que criasse coragem ele só iria se fosse comigo. E em pleno meio-dia, hora de pico no trabalho do Banco do Brasil, me chamam ao telefone e era ele dizendo que queria porque queria se internar. Mas tinha que ser naquela hora, senão ele perderia a coragem.

Largo eu tudo que estou fazendo e vou buscá-lo e encaminho-o a uma clínica em Santa Teresa mesmo, me responsabilizo por ele e peço-lhe que colabore, que se ele colaborar tudo vai dar certo. Na semana seguinte vou visitá-lo com a Soninha e as crianças e já o acho com um aspecto melhor, menos "verde" e também bem mais tranquilo, certamente por efeito de remédios.

Quinze dias depois a Soninha me liga e diz que ele saiu da clínica porque já se sentia curado. E o "curado", naturalmente, dois dias depois retorna ao vício, o que nos deixou muito abaladas.

Esses episódios se repetiram umas 4 ou 5 vezes. E todas as vezes eu largava o que estivesse fazendo para atendê-lo, acreditando que , quem sabe, dessa vez daria certo.

Até que um dia recebo um telefonema dele no qual ele me comunica já ter feito a sua escolha. Ao lhe perguntar qual, ele responde , com muita segurança ( provàvelmente por já estar drogado ) : " A droga " . Aquilo me atingiu como um bólide , demorei um pouco a me refazer mas lhe respondi que então , a partir de agora, eu não poderia mais ajudá-lo. Porque ir com ele para as drogas eu não iria e não ficaria perto dele vendo-o se destruir. Ele concordou, desligamos, nunca mais o vi. E há cerca de uns 3 meses soube pela Soninha que ele morreu há uns 2 anos atrás.

Fiquei extremamente triste e pensei se deveria me sentir culpada . No encontro, ao citar esse caso, disseram-me que não, que eu agira da forma correta. Fui até onde o meu limite permitia.

Seja como for, rezo para ele sempre que rezo para os meus mortos queridos e peço a Deus que leve em conta a vida complicadíssima que teve, que sua infinita Misericórdia permita que o levem a uma Colônia para ser tratado até poder reencarnar para reparar seus enormes erros. Mas que o nutra de luz suficiente para fazer melhores escolhas.

Depois de dar o meu depoimento sobre ele, ia começando a me sentir melhor quando alguém puxa alguma coisa referente a depressão. Eu pensei cá comigo: " De novo, não ". Porque quando as coisas surgem, se eu me calar, é muito pior. Eu tenho que colocar aquilo prá fora, quantas vezes as oportunidades acontecerem, até que chegue o dia que o assunto esteja digerido e eu não me incomode mais. Naturalmente lá fui eu dar o meu depoimento. Falar que há 15 anos tenho depressão ( porque é uma doença que não tem cura, só controle ) e que há 5 anos atrás, na pior crise que já tive, tentei pela primeira vez o suicídio ingerindo 66 comprimidos de Somalium. Depois disso, já na casa da Denise - uma vez que a Zoé disse que eu não mais poderia morar sòzinha - passei dois meses muito mal, sem levantar da cama, só olhando para o teto e chorando 24 horas por dia, sem querer tomar banho, sem querer comer, sem querer viver. Até que a Denise me leva ao Frei Luiz , onde fui tratada durante 2 anos seguidos, todos os domingos e no final desses 2 anos a depressão não mais se manifestava ( como não se manifesta mais até hoje ) mas em compensação virara uma fiel e diária dor de cabeça alucinante que nenhum médico, nenhum remédio, nada, conseguia ao menos apaziguar. Sempre serei infinitamente grata ao Frei Luiz por ter sido orientado por Jesus para cuidar daquela terrível depressão. E agora precisava cuidar da dor-de-cabeça.

Mas meu corpo estava esgotado pela distância e tempo de espera aos domingos, no Frei Luiz . Havia engordado muito por ter parado de fumar mas ao mesmo tempo estava muito fraca fìsicamente porque não saía da cama.

Foi quando descobri que na esquina da minha rua havia o Centro de Estudos Espírita Rita de Cássia e Maria de Nazaré. Embora estranhasse um pouco no início, por ser totalmente diferente do Frei Luiz, aos poucos fui não só me acostumando como gostando muito de estar lá, formando um vínculo afetivo com aquela Casa que me recebeu tão fraternalmente e de onde recebia, além do curso que fazia e das palestras que ouvia, os passes de cura às quartas-feiras, agora voltados para a dor-de-cabeça terrível que não dava trégua. Mudei de psiquiatra e a Andréa é uma profissional de primeira linha e vendo a minha doença como um todo, passou a cuidar também da dor de cabeça, coisa que o psiquiatra anterior só fazia dizer que fazia parte mas não se mexia para cuidar. E ao longo do tempo, com os passes de cura , o novo remédio e o gel que passava na cabeça, consegui amenizar essa nova tortura. Já cheguei ao ponto de ficar um mes sem dor-de-cabeça , o que mostra que a cura não é tão impossível assim.

Ainda assim, com o vigoroso apoio e sustentação dos entes espirituais tão queridos dessa Casa , de saber que estava tentando trilhar o caminho de Jesus, com o apoio das pessoas amigas do Rita, ainda assim, nos momentos de maior desespero ainda tentei mais 4 vezes o suicídio. Depois de ser " devolvida " tantas vezes, se não percebia o quanto feria a Deus, pelo menos devia perceber que feria a minha inteligência, porque se não conseguia era porque não estava mesmo na hora de ir. Eu devia ter um motivo para continuar nessa terra de provas e expiações mas não conseguia encontrá-lo e nesse encontro o encontrei.

Porque todo esse processo que aconteceu comigo nesses quinze anos, foi acompanhado pelas mortes de meus melhores amigos , que eram o meu bálsamo, meu esteio. E quando o Victor morreu passei a fumar em dobro para ver se morria junto com ele. Tudo perdera o sentido para mim. Por isso passei a me isolar completamente, a me afastar das pessoas, mesmos dos poucos e queridos amigos que me restavam nesse plano. Não via mais o menor sentido na vida, nenhum horizonte a que pudesse buscar.

E foi o descortinar desse horizonte o grande presente que o Encontro de Carnaval me proporcionou. Eu sempre fui movida por ideais, que só parava de lutar quando os alcançava, buscando imediatamente outro. E não mais era assim a minha vida. Mas agora voltou a ser . Agora eu sei porque vim com Sol, Lua e Mercúrio em Capricórnio, na sexta casa, porque tive que estudar Astrologia para entender isso com toda a profundidade: Eu tenho como missão nessa vida o trabalho de SERVIR. Já escutara isso cinquenta milhões de vezes, principalmente de astrólogos estreantes, porque é um aspecto óbvio mas nenhum deles me soube explicar o que era esse servir. Nem eu, quando fiz contato com a Astrologia. E esse último dia me deu a resposta que busquei durante toda uma vida. Eu sei onde e como posso realizar o meu destino de SERVIR e dentro da Casa Espírita.

Já tenho sentido minha mediunidade bem mais apurada , uma vez que tomo passes quase todos os dias e não sabia o que fazer disso, chegando a me dar uma certa inquietação. E como nunca quero ocupar muito a Cilene pois ela já é muitíssimo solicitada, a minha Fada Madrinha lá no Rita, ficava pensando como poderia ser útil e ao mesmo tempo desenvolver um lado meu que fosse bastante verdadeiro para que eu não começasse uma coisa e resolvesse parar dois meses depois. E ontem eu descobre que esse ano vou fazer a segunda parte do curso do Livro dos Espíritos e ganhar meu passaporte para atingir o meu destino: Fazer o curso de Orientação Mediúnica I e no ano seguinte , Orientação Mediúnica II e após isso, me colocar a serviço não só da Casa Espírita que com tanto carinho me acolheu como principalmente a serviço de Deus.

A alegria que me deu vislumbrar esse desejo com tal clareza, com tal verdade , deve ser a alegria a que tanto se referiam os mestres daquela Casa tão querida que agora se liga definitivamente ao meu Destino.

Agradeço a Jesus, mestre querido, a possibilidade de ter participado desse curso e descoberto o porque ele me devolveu 5 vezes nessa vida ( e certamente com seu perdão ) e à lucidez que me permitiu acessar ao que busco 58 anos na minha vida: A motivo , a razão de estar aqui. Que assim possa ser.
{2/6/2008}!

5.2.08




ESSE ESTÁ SENDO MEU MELHOR CARNAVAL


Hoje, aos 58 anos, olho para trás ( tenho feito muito esse movimento. Acho que preciso dessa alavanca de coisas tão opostas ao que estou vivendo agora para poder ir cada vez mais um pouquinho mais longe ) e vejo muitos, muitos carnavais.
Muitos tipos de carnavais que devo confessar que me sentia muito bem , uma vez que bebia , fumava, enfim, tinha todos os componentes totalmente contrários ao que vejo como perspectiva de felicidade agora e do que via antigamente. Até o tormento de duas saídas em Escola de Samba tenho no meu extenso currículo. Coisas da Denise, naturalmente, e lá ia eu atrás. Mas tudo fazia parte extremamente coerente do contexto em que vivia. Do tipo de felicidade que buscava naqueles momentos.

Essas saídas nas Escolas de Samba ocorreram, inclusive, depois de 1993, quando já havia se início o processo depressivo. Mas como ele não era contínuo ( senão eu não estaria aqui escrevendo nem uma letrinha sequer ) , nos intervalos buscava essas coisas para ver se resgatava um pouco da minha antiga alegria. Eu ainda não havia entendido que aquela alegria, aquilo que eu vivera como enorme felicidade cabia no momento que foi vivido, agora não caberia mais. Por isso nada disso surtia o menor resultado. Até pelo contrário. A sensação que eu tinha é que depois dessas tentativas muito “ over “ eu retornava ainda mais voltada para o lado de dentro, tornando mais difícil a cada dia a minha comunicação com as pessoas , o que hoje, chegando ao seu ponto máximo, me leva às maiores dificuldades que tenho em ser o tal “ Homem de Bem “.

Porque é uma coisa muito estranha. Eu sempre tive muita facilidade em fazer amigos. Amigos de fé, amigos de verdade. Alguém ter, em algum momento de sua vida, uns 10 amigos de fé, em quem podia confiar cegamente porque igualmente confiavam em você porque a base da relação era o amor faz de mim uma pessoa privilegiada por Deus. É a tal história de que não transformou meu boneco Fred em gente, como eu pedia todas as noites , influenciada por Pinóchio, mas me deu vários Freds em minha vida com os quais vivi lindas , alegres ou tristes, situações profundas e marcantes em nossas vidas.


Até que uma “ coincidência “ ( que é claro que não existe ) aconteceu. No mesmo momento que o processo de depressão começou , em 1993, meus amigos foram, ao longo do tempo, morrendo. E eu não era ainda Kardecista para entender essas mortes de pessoas tão queridas com olhos que não fossem de dor e desespero. Na verdade já começara em 1991 com a morte de minha mãe, a pessoa que mais amei e apesar de tanto amor tive a relação mais conflituosa possível. Mas isso já é outra conversa.

E assim foi acontecendo. Um amigo morrendo atrás do outro. A cada amigo que morria , eu ia perdendo um pedaço de mim. Até que em 21 de dezembro de 2001, morre o Victor. E isso eu não consegui suportar. A partir daí não só a depressão piorou gravemente como outros sintomas corporais que vão se desdobrando até os dias de hoje, mas que hoje, depois do Kardecismo, lanço um olhar de outra maneira.

O que sei dizer é que o saldo dessas perdas, arrematadas pelo Victor, que se vocês se dispuserem a procurar no curso desse blog poderão entender a importância dele na minha vida, deu um nó nos pouquíssimos neurônios que me restavam e geraram 5 estúpidas tentativas de suicídios ( na primeira tomei 66 somaliuns e nem dormi quanto mais morrer ) e em todas eu fui sumariamente devolvida. Só não sei ainda por que lado. Do de cima ou do de baixo.

Naturalmente hoje sou infinitamente grata a Deus por tantas devoluções e tolerância para comigo, me dando 6 vidas na mesma vida para ver se eu achava o caminho das pedras, como realmente achei.

Depois da primeira tentativa, dois anos de Frei Luiz, a quem serei eternamente grata por ter sido o intermediário que Deus orientou para me ensinar a controlar a depressão ( depressão não tem cura , só controle. Tem que tomar anti-depressivo até dentro do caixão, pra não chegar deprimida do outro lado ) , que , sob as bênçãos de Deus, há cinco anos não tenho mais nenhuma crise explícita.

Até que, com o corpo exausto pela verdadeira viagem que é chegar ao Frei Luiz, o tempo de espera e tudo mais, e com a saúde física bastante debilitada ( mas sem
{2/5/2008}!


depressão ), encontro, na esquina da minha rua , o Centro de Estudos Espíritas Rita de Cássia e Maria de Nazaré que hoje sei que foi para esse encontro com essa casa tão amorosa e acolhedora, que me faria ter o imenso desejo de fazer a famosa “ Reforma Íntima “ que Deus me deixou aqui. Hoje sinto aquela casa como um pedaço de mim, mas um pedaço de um “mim” que se renova a cada dia , que parece ter um radar buscando constantemente suas imperfeições para poder corrigi-las, sendo umas mais fáceis que as outras.

Porque as mortes de meus amigos ( me restando muito poucos ) trouxeram de novo à tona o “ Lobo da Estepe “ que sempre morou dentro de mim, desde que aos 23 anos, devorei Clarice Lispector e Hermann Hesse. E hoje, embora faça vários movimentos de ajuda, tenho muita dificuldade de lidar com as pessoas. Por isso os itens em negrito que vocês verão a seguir são as minhas grandes montanhas a ultrapassar.

Moro sozinha, vivo sozinha, falo sozinha, ( com a Tatie, claro ) e o pior de tudo: gosto disso.

De forma que até para que isso não se tornasse um problema de enorme gravidade, o Rita me faz ao menos circular entre as pessoas, antes dos momentos que realmente me alimentam, que são as palestras ( que procuro ir diàriamente, para tomar os passes ) , os cursos, os seminários, enfim, tiram a lobinha da toca e a trazem para o mundo dos homens.

Mas aquilo que eu tinha , de dar festa para 60 pessoas, ficar 6 horas conversando e tomando um “ uisquinho “ ( colocam sempre um nome afetivo nas bebidas alcoólicas para que tenham um ar menos nocivo. No cigarro também. “ – Vou ali fora fumar um cigarrinho “ ( esqueceu de dizer que vai se matar mais um pouquinho ). Com tudo isso eu parei . Mas parei naturalmente, sem nem ao menos me dar conta que havia parado. Simplesmente não encontraram espaço para se encaixar mais na minha rotina de vida. Porque hoje eu sei que Deus preservou meu corpo físico vivo para que eu pudesse ter esse encontro com essa Casa maravilhosa que tão bem me acolheu com TODAS as minhas questões, histórias, dificuldades e para que eu começasse o meu progresso na vida espiritual, embora já bem velhinha para isso.

Mas está sendo tão mágico esse encontro que às vezes sinto – como nesse encontro de três dias de carnaval – como se nele tivesse vivido 3 anos correspondentes no meu modelo de vida anterior.

Só para encerrar, para quem se interessar, vou deixar aqui os quesitos que os espíritos superiores nos forneceram para que possamos nos orientar se quisermos chegar a ser um HOMEM DE BEM, cuja conseqüência será a experimentação de um novo tipo de felicidade. Mas não se esqueçam que há o Livre-Arbítrio e que Deus ama todos os seus filhos e não o vai excomungar se você não quiser cortar caminho por aqui para chegar mais rápido à iluminação. Porque TODOS, dos mais avançados espíritos do planeta, aos mais rudes, um dia , podendo, naturalmente ter que demorar muitos mais séculos encarnatórios do que um espírito mais atento, mas TODOS um dia chegaremos lá. Vejo você lá , então. Tá marcado. Eu estou com uma baita pressa mas nós vamos chegar lá.

CARACTERÍSTICAS DO HOMEM DE BEM

1- Cumpre a lei de justiça , de amor e de caridade, na sua maior pureza
2- Interroga a consciência sobre seus atos
3- Interroga a si se fez todo bem que podia
4- Se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil
5- Deposita fé em Deus ( Sua Bondade, Justiça, Sabedoria )
6- Submete-lhe à vontade
7- Tem fé no futuro
8- Coloca bens espirituais acima de bens materiais
9- Aceita, sem murmurar, as provas e expiações
10- Faz o bem pelo bem, sem esperar paga alguma
11- Retribui o mal com o bem
12- Sacrifica sempre seus interesses à justiça
13- Encontra satisfação no bem que faz
14- Cuida dos interesses dos outros, antes de pensar no seu próprio
15- Não faz nenhuma distinção entre as pessoas
16- Não alimenta ódio, nem rancor, nem desejo de vingança
17- É indulgente com a fraqueza alheia
18- Atenua , tanto quanto possível, o mal praticado por outras pessoas
19- Estuda suas próprias imperfeições e trabalha em combatê-las
20- Usa, mas não abusa dos bens que lhe são concedidos
21- Respeita todos os direitos que aos seus semelhantes dão às leis da Natureza, como quer que sejam respeitados os seus.

{2/5/2008}!

3.2.08



ONDE ESCONDI O HOMEM DE BEM ?


Acabo de chegar do primeiro dia do seminário que o Rita de Cássia promove nos três dias de carnaval. E o tema é um dos infinitos temas contidos no “ O Livro dos Espíritos “ de Allan Kardec.

O estudo hoje foi pautado nas “ Características do Homem de Bem “ . E nos foi perguntado se conhecíamos alguém com tais características, se nós nos sentíamos dentro daquelas características, e foram citados exemplos, debatidos conceitos , enquanto minha imaginação voava para o ano de 1972 , portanto 36 anos atrás .

Acabara de retornar para a Escola Maria Isabel de Carvalho, na Estrada do Mendanha, em Campo Grande – RJ, após o rompimento do meu casamento e a perda de dois filhos gêmeos, fato que me abalou bastante. Não me sentia nem um pouco afeita a lidar com crianças nesse momento que eu considerava tão difícil de superar. E para surpresa minha, a diretora da Escola , d. Manoelina, havia me selecionado que turma para mim? Justamente a turma de A.E. Na verdade, nessas escolas menos favorecidas, AE não significa que sejam exatamente crianças excepcionais. Bastou repetir a série pela segunda vez e está traçado o seu destino: Turma de A.E.

Eu não acreditei. Como sabendo da minha fragilidade no momento , a dona Manoelina me separa justamente uma turma extremamente problemática. Talvez porque ela já soubesse, muito antes de mim, o quanto é linda a letra de Deus quando ele escreve por linhas tortas. O fato é que me senti irritada, ultrajada, a última das criaturas.

Quando as turmas foram encaminhadas às salinhas e eu à minha , quando lá cheguei o que vi foi um amontoado de crianças uma em cima das outras, parecendo um castelo de gurias e guris. Fiquei a olhar para aquilo absolutamente em silêncio. Da minha parte, por não saber realmente o que fazer mas da parte deles – como existe a misericórdia Divina – foi lido de outra maneira. “ Ué...Essa ainda não gritou, não bateu com o apagador na parede, não bateu com a cadeira no chão....estranho...quem será essa?

E foi dentro do meu silêncio e dentro da curiosidade deles que tivemos nosso primeiro encontro.

Lentamente, enquanto eu permanecia calada e de braços cruzados, eles foram se conduzindo aos seus lugares com ar de extrema curiosidade. Uma coisa eu já tinha a meu favor: eu era diferente.

Quando todos estavam sentados e calados eu me apresentei e falei que estava ali para fazermos um trabalho em conjunto. Pedi que levantasse o dedo ( Frisei bem: LEVANTASSE O DEDO ) quem sabia o que era um trabalho em conjunto. Aí começou tudo de novo : A mesma balbúrdia, a mesma gritaria e braços se agitando por todos os lados: “ – Eu professora , eu professora !!!” .

Da mesma maneira que agi antes, sentei , cruzei os braços e esperei que fizessem o mesmo. E a assim foi, mas permaneceram de braços levantados. Escolhi dois bracinhos de uma menina que eu já havia percebido ser a mais brabinha da sala, daquelas que adoram criar uma confusão.

Primeiro perguntei-lhe o nome ( enquanto isso, os outros braços se abaixavam , entendendo que não era a sua vez ) e idade ao que ela me respondeu, de cara muitíssimo amarrada mas satisfeita por ter sido a escolhida, por alguém , de alguma forma, estar olhando para ela. “- Meu nome é Dayse e tenho 14 anos “ .

Fiquei abaladíssima com essa informação pois até agora Dayse era analfabeta e estava na idade limite de freqüentar aquela escola. Mas me controlei e fui à pergunta original: “ – O que é um trabalho em conjunto? “ . Ao que ela me respondeu ser um trabalho que não é feito sozinho, precisa de outras pessoas para fazerem. “ Ao que eu retruquei. E-XA-TA-MEN-TE. Estou aqui para fazer um trabalho JUNTO com vocês mas se vocês não me ajudarem não vai haver trabalho nenhum . Eu não vou perder nada com isso porque já sei ler e escrever mas vocês vão porque muita gente aqui, como a Dayse, só tem esse ano como última oportunidade. Então vocês vão ter que escolher: Ou ficam do meu lado e vamos fazer um trabalho de dar inveja às outras turmas , ou eu deixo vocês aí se embolando, sem aprenderem coisa alguma e no fim do ano são exonerados do colégio. Vocês decidem . Vocês vão se reunir ( não é se embolar ) por 5 minutos e eu vou até a secretaria e volto. Aí vocês me dão a resposta. “

Todos concordaram e eu saí com o coração aos pulos. Jogara uma cartada muito , muito alta. Na turma havia crianças de todas as idades, de 8 a 14 anos, várias séries misturadas, seria um trabalho intenso e eles realmente teriam que me ajudar. Mas exigir que eles entendessem isso não teria sido uma precipitação? Agora não adiantava mais . Era voltar para a sala e ver o que havia ocorrido.

{2/3/2008}!











Para minha surpresa, quando chego na sala, as crianças estão em silêncio e a Dayse me esperando na minha mesa para me dar o resultado. Eu perguntei: “ – Então? Conversaram? A que conclusão chegaram? “ . Então a Dayse, de cabeça baixa e falando mais baixo ainda, respondeu: “ – Nós queremos trabalhar junto com a senhora...”

A sensação que senti foi òbviamente indescritível, peguei a Dayse e dei-lhe um abraço enorme ao qual ela – trêmula – retribuiu com todo carinho como se esse fosse o primeiro abraço que recebesse em toda a sua vida.

Quando, percebendo as lágrimas nos olhos não só da Dayse como também de todas as crianças eu perguntei se eu poderia comemorar essa sábia decisão dando um abraço em cada um. E assim foi feito o segundo gol do dia. Não só as letrinhas que faltavam na vida dessas crianças mas muito, muito mais fundamentalmente o afeto. E foi sobre o afeto, que nós todos juntos construímos todas as nossas conquistas.

É claro que a princípio não foi fácil. Eu não tinha nenhuma varinha de condão . Só tinha esquecido a minha dor para me doar em amor para cada uma dessas crianças.

Separamos , todos juntos, as crianças por classes ( ano ) diferentes, para que os exercícios fossem ministrados adequadamente, firmamos um trato que ao invés daquele bolo de crianças que eram na forma antigamente, seríamos a forma mais linda do colégio, o que aconteceu em menos de um mês, quando pràticamente não se via nenhuma cabecinha fora do lugar e sempre, sempre que um grupo estava estudando, eu estava conversando com outro, sobre cada um deles, sobre suas vidas particulares.

Uns eram mais propensos a se abrir, outros não. Mas de qualquer maneira a paz se instalou na nossa turminha. E a Dayse era a minha principal referência. Até hoje tenho os bilhetes dela ( aprendeu a escrever logo no terceiro mês, tal a vontade que tinha de me escrever bilhetes, já que o tempo não dava para conversas ). E tenho um que é difícil de ler sem que se chore em que ela diz que gostava mais de mim do que de sua própria mãe, que no inverno, como não tinha dinheiro para comprar cobertor para ela, fazia-a dormir ao lado do fogão. E a história individual dessas crianças iam todas por esse caminho , que eu tentava suprir com muito dengo, afago, carinho, sem descuidar dos estudos.

Eu sempre pensava comigo mesma. Embora tivesse apenas 22 anos, difìcilmente faria um trabalho tão benigno, tão positivo , como esse que fazia no ano de 1972. Acho que nesse ano fui uma mocinha de BEM.

As provas finais se aproximavam, os estudos apertavam e acontece o inacreditável: sofro um acidente de carro na avenida Brasil que me imobiliza por uns 2 meses. Eu não poderia aplicar a prova final do qual todos se orgulhavam que passariam.

Naturalmente escrevi para eles uma carta – que mandei por uma professora amiga – que queria que eles fizessem a prova como se eu estivesse ali. Que eu estava rezando por todos eles e confiando que todos eles passariam de ano, o que em 90% dos casos aconteceu.

Nesse meio termo recebo uma comunicação do Banco do Brasil dizendo-me que eu havia passado no concurso e com uma colocação tão boa que poderia escolher a Agência que quisesse para trabalhar, inclusive no Rio de Janeiro.

Eu falei para minha mãe que não iria de jeito nenhum , que tinha um compromisso moral com aquelas crianças, que eu não podia abandoná-las. Mas a pressão foi terrível. O salário era mais que o dobro, meu pai pressionava , minha mãe pressioanava, meu primo, médico do banco pressionava, e eu, nunca saberei se felizmente ou infelizmente, cedi. E deixei para trás meu momento lindo de Homem de Bem.

Mas nunca esquecerei a Dayse e todos os outros que fizeram de 1972 o ano mais importante da minha vida, um ano em que eu saí de mim para me doar ao outro sem ter a menor noção de que estava fazendo isso. Precisou um seminário em 2008 para eu ter consciência que em algum momento da minha vida eu fui um Homem de Bem.

{2/3/2008}!

27.1.08








{1/27/2008}!











ASTROLOGIA: UM SERÍSSIMO EXERCICIO, UMA PREPARAÇÃO

Em outubro de 1992, fui fazer meu Mapa Astral e depois meus Trânsitos com uma astróloga que não tem meio-termos: Ou se ama ou se odeia. E quem ama são pessoas que não foram ali para saber se vão ou não casar com os namorados mas sim buscando um auto-conhecimento que as auxilie a se melhorar como pessoa, na medida que tem mais informações sobre quem é essa pessoa.

Foi ela quem me ensinou que não importa o que vai ou está acontecendo comigo mas sim como eu vou lidar , quais as disponibilidades maiores do momento, para lançar um novo olhar sobre o que está acontecendo comigo.

Senão fica parecendo sempre que nós estamos à mercê de forças ocultas, vítimas do Universo, quando na verdade cada um de nós tem Livre-Arbítrio para ser o agente e condutor de sua própria vida.

Hoje, dezesseis anos depois, tendo mudado tudo na minha vida a partir daquelas consultas ( afinal, estava em plenas conjunções de Urano e Netuno com o Sol, Lua e Mercúrio na sexta-casa ) , colocado tudo de cabeça para baixo , buscando um novo caminho, caminho esse que foi o estudo profundo que fiz da própria Astrologia, nunca, nunca mais encontrei outra Astróloga como ela. Não é o conhecimento que a diferencia dos grandes nomes com os quais tive contato no meu incansável estudo da Astrologia mas a coisa mais importante, o que realmente difere um Astrólogo do outro: a linguagem, a sua visão do mundo. E é esse tipo de abordagem que se utiliza dos planetinhas para chegar a uma linguagem muito mais ampla e ao mesmo tempo mais individual, que faz de Nane Lopes uma Astróloga no mínimo diferenciada da maioria. Nunca mais consegui me adaptar a nenhuma outra na medida que todas as outras trilham por outros caminhos.

E durante oito anos , depois de passar por todos os cursos disponíveis no Rio de Janeiro, escolas específicas, aulas particulares, finalmente comecei meu trabalho com Astrologia. E sentia que meu trabalho tinha um pouco da linguagem (ou ao menos foco) de Nane Lopes , uma forte base de 3 anos de profundos estudos e uma outra coisa que eu não sabia explicar o que era mas que era quando eu chegava nesse ponto que o mapa realmente deslanchava. Como se alguma coisa empurrasse meus dedinhos nas teclas do computador me levando a escrever alguma coisa que não havia aprendido em livro ou aula alguma.

O fato é que fiz meu trabalho com muito prazer e – fundamentalmente – com muita seriedade durante pelo menos uns 8 anos, fiz clientes fiéis , inclusive uma família inteira, dos avós até os bebezinhos. Acho que consegui ajudar algumas pessoas e isso é que é importante.

Até que a depressão foi se tornando mais assídua ( antes de 2003 dava para contornar ) e mais desesperadora, até que chegou ao ponto de não mais me deixar trabalhar.

Não vou discorrer sobre a tortura que é um estado depressivo mas o fato é que fui levada , como último recurso, ao Frei Luiz, um centro Kardecista em Jacarepaguá. Como eu estava muito debilitada também fìsicamente a distância, o imenso tempo de espera para o atendimento, tudo isso me era muito difícil. Mas assim se passaram dois anos e a tal depressão desapareceu de meu horizonte. Sempre serei grata ao Frei Luiz por isso. Mas se a depressão desapareceu, no lugar dela surgiu uma dor-de-cabeça alucinante e contínua, que não havia remédio que passasse nem médico que me desse esperança de uma cura.

Em 2005 já havia comprado meu apartamento na Rita Ludolf e quase na esquina, na Gal. San Martin 1212, havia uma Casa de Estudos Espíritas Rita de Cássia e Maria de Nazaré, que – embora igualmente Kardecista – era muito mais voltada mesmo para palestras seguidas de passes, cursos bastante variados e também passes de cura do qual passei a fazer parte por orientação de uma pessoa que considero um anjo de luz dourada que brilha à sua volta. Não fui parar na Cilene por acaso. Só uma pessoa iluminada como ela para – junto com a minha nova psiquiatra – conseguir que eu já tenha períodos totalmente sem dor-de-cabeça, contrariando o absurdo que um renomado neurologista havia me dado: “ Você vai ter essa dor-de-cabeça para sempre.” Parecia a rainha de copas de Alice, sempre dizendo: “- Cortem-lhe a cabeça ! Cortem-lhe a cabeça “ . Sim, porque com um prognóstico desses, que mais parece uma maldição, só mesmo cortando-me a cabeça.

E foi numa das palestras que procuro ir quase todos os dias da semana que comecei a ouvir as tais coisas que empurravam meus dedinhos no computador e eu não sabia de onde vinham. Em cada palestra eu encontrava uma. A sensação que eu tinha ( e ainda tenho ) é que o tempo não existia ( e não existe mesmo ). É como um varal com as coisas que compõem a nossa vida penduradas por pregadores e basta tirarmos uma coisa do lugar , prendê-la com pregadores em outro, que nada fica alterado. Ou seja, a idéia estava mais adiante mas a mão espiritual de algum espírito amigo me adiantava a idéia quando cabia na realidade de determinado cliente.

E isso aconteceu inúmeras vezes e cada vez que acontecia eu ainda conseguia me surpreender. Eu falava coisas naquela época que só agora vinha a conhecer.

E outra coisa intrigante que também aconteceu: eu amava a Astrologia, guiava minha vida inteiramente pela direção que me indicavam os planetinhas ( mas com aquela visão de auto-conhecimento, com aquela linguagem que aprendi com a Nane e jamais esquecerei ) .

Depois que entrei para o Kardecismo ( que aliás foi a escolha do meu avô Frederico Cúrio de Carvalho , depois de 5 anos de seminário, por volta de 1920. Isso foi uma extrema ousadia , abraçar uma Doutrina cujo primeiro livro foi publicado em 1857 ( Livro dos Espíritos ) e que só criou raízes MESMO no Brasil por volta de 1920/1925 , por Leon Denis , fazendo do meu avô um visionário de um novo tempo.

Mas como ia dizendo, depois que entrei para o Kardecismo, os “ acasos “ começaram a indicar que o tempo da Astrologia havia acabado e que servira de ponte para um novo patamar. Aí o computador quebra, vai para o técnico, o técnico some com o meu programa de Astrologia, eu até pego emprestado outro mas fico inteiramente bloqueada em ajustá-lo, enfim...coisas assim.

E atualmente não tenho mesmo mais o menor espaço ( embora o respeito continue inteiro ) para um movimento na área da Astrologia. É como se tivessem trocado o meu chip de entendimento não só do mundo como do que vim, não só eu como todos nós viemos fazer aqui.

Mas como a seriedade de Saturno continua e continuará sempre dentro de mim , eu precisei muito desse estágio maravilhoso que foi a Astrologia para poder alçar a um novo patamar.

Agradeço a Deus ter conseguido entender tudo isso porque como sou mais emocional do que racional , enquanto não consigo juntar e entender as duas coisas a sensação que tenho é que estou em falta com alguma coisa ou com alguém.

Obrigada planetinhas, pelas lindas voltas que a gente deu juntos e por me pousarem agora – e sinto que pra sempre – nos braços abençoados e amigos do Kardecismo.


{1/27/2008}!

25.1.08











{1/25/2008}!














1968 – UM ANO QUE EU NÃO VI

1956 – “ – Estamos indo para a praia. Bote o sapato, filhinha...” E a filhinha, nos seus seis anos de redoma , calçava o sapatinho verde de borracha para poder pisar na areia e entrar no mar sem se ferir.

1962 – A mãe encontra a “filhinha” namorando , com “apenas 12 anos “ mas corpo de mulher feita e quase enlouquece. Decide colocá-la num colégio interno, mesmo que isso represente todas as suas reservas financeiras e sacrifícios futuros. O que importa é que ali ela estaria protegida e receberia novos valores morais.

1963 – A “ filhinha “ vive um dos anos mais difíceis da sua vida, com uma saudade enorme de sua casa, de sua mãe, da sua cama, dos seus amigos e sempre que possível arranjava uma forma de ir para a enfermaria. Lá pelo menos podia dormir. Uma vez disse para a freira que achava que estava com febre e ao mesmo tempo pediu um chá. Quando ambos chegaram e a freira se afastou do quarto, aproximou o termômetro do chá quente, até que chegasse a 39 graus e ficou esperando a freira vir e tirar o termômetro. Apavorada, a freira providenciou para que seus pais viessem buscá-la para levá-la a um médico e descobrissem a causa de febre tão alta. Em casa deu seqüência a esse método até que um dia, se distraiu e o mercúrio estourou pra todo lado, denunciando sua idéia tão genial. O resultado foi a subida de bonde de novo de volta ao colégio e a promessa de vários castigos. Tudo era na base do olho por olho dente por dente.

1965 – Bailes de debutantes no Grajaú Tênis Club e no Sírio Libanês. Mais alienada do mundo impossível. Para ela a vida se resumia em vestidos bonitos que atraíssem olhares de rapazes bonitos, interessantes e de preferência tocando um bom apito para satisfazer a primeira pergunta que sua mãe lhe fazia quando arranjava um namorado “ Qual o apito que ele toca? “ ( Será que ela queria fazer uma bandinha? )

E foi entre namoros, amigas ( Lina, Regina, etc ) e suas primas, Jandira e Corina, bailinhos e idas anuais em julho a São Lourenço que sua mãe conseguia mantê-la bem longe dos jornais e o pior, manter os jornais bem longe dos interesses dela. Era melhor uma filha alienada ,lendo fotonovelas, que sonhasse apenas com um bom casamento e um príncipe encantado do que passar pelo que a sua amiga estava passando, sem saber da filha há meses. Nem ela nem a Polícia.

Em 1968 , surpreendentemente, sua mãe arranja dinheiro para que ela vá fazer uma viagem à Disney , sonho de ouro de toda menina deslumbrada e alienada como era, naquela época em que – parecendo ser do outro lado do mundo – tudo pegava fogo no país mas ela não tinha a menor idéia disso. E quando ouvia falarem, por alto, pelo noivo ou por seus pais era sempre: “ Tem que prender tudo e matar. Tudo um bando de comunistas. “ E acostumou a achar que “ comunista “ devia ser mesmo uma coisa muito ruim, tal a raiva com que falavam. Seus pais não compravam jornais para que ela não tivesse nenhum acesso a nenhum tipo de informação , principalmente de ordem política, que soubesse que pessoas da sua idade se organizavam e formavam grupos clandestinos exatamente para se confrontarem com o poder que pensava igualzinho a seus pais.

Até que um dia, depois da volta da Disney, ingênuamente vendo televisão, aparece uma daquelas chamadas urgentes sobre um assunto de suma importância. E ela vê surgir ocupando a tela inteira a sua grande amiga de infância, Eliane.

Tinham sido unha e carne até mais ou menos os 16 anos quando a vida , de alguma forma , as afastou. As afastou porque ela continuava a ser uma alienada e Eliane, provàvelmente influenciada pelo seu irmão, um carinha meio estranho mas de inteligência privilegiada e antenado com tudo que se passava à sua volta, estudante de engenharia na Nacional, se envolveu intensamente com os acontecimentos políticos da época, e agora ouvia na TV que era procurada como uma perigosíssima guerrilheira comunista, um perigo eminente à sociedade decente do nosso país. Foi com se eu aterrissasse de Marte e desabasse sobre a terra. Uma terra que agora eu queria conhecer.

Naturalmente suas intenções de entender tudo o que estava acontecendo era sempre dificultada por seus pais, pelo noivo ( mais alienado ainda do que ela ) e pelas freqüentes ameaças que agora ouvia nos telejornais. Época coroada pela decretação do AI 5, redigido por Costa e Silva e promulgado a 13 de dezembro de 1968, que além de fechar o Congresso por quase um ano, passou a perseguir os artistas que tinham o artifício de, através de suas obras, reagir à opressão. Pode-se chamar o AI 5 de “ Marco dos anos de chumbo” que vai até 1974.

Até que um dia descobriu, imaginem só, que a rua em que morava dava num quartel que supôs ser um dos DOI-Codi , para onde eram encaminhados os presos que não falavam tudo que sabiam, porque ali, através de métodos mais expressivos acabariam por falar. Ou acabariam.

Pois foi nesse prédio horrível mesmo que chegou com uma carta na mão e certamente com cara de imbecil e disse: “ –Eu quero entregar essa carta para minha amiga Eliane “ . O guardinha ficou olhando pra cara dela como quem olha para um ser totalmente abobalhado, sem a mínima idéia do que estava fazendo, do risco que estava correndo. E na verdade não sabia mesmo. Mas isso não importava. Ela só queria deixar a carta para a Eliane. E foi tão chata, tão chata, que ele deduziu imediatamente que ela não sabia mesmo estar na boca do lobo e se comprometeu a entregar a carta. Depois soube que entregou.
II

{1/25/2008}!










{1/25/2008}!











Uns meses depois, Eliane se casa com um namorado, também guerrilheiro e preso como ela, no Palácio da Justiça. E lá estava ela, sem conseguir entender a que ponto chegaram as coisas no seu país e a que ponto chegara a sua alienação. Depois do casamento, ambos foram algemados e levados de camburão, cada um de volta à sua cela. Lua de fel.

Meses mais tarde, Eliane foi solta e ela foi buscá-la de carro na porta do DOI-Codi. Levou-a para a casa da mãe, onde choraram bastante e para interromper um pouco tanta dor sugeriu que dessem uma volta de carro. Afinal tinha muito tempo que ela não via o Rio. Agora porque estivera presa e antes porque vivia uma vida de constantes fugas, sem “ aparelho” fixo para não dar margem a uma prisão repentina, o que acabou acontecendo.

Iam muito bem no passeio, até que ela entrou na floresta da Tijuca, um lugar lindo mas meio sem saída e Eliane começou a passar mal e lhe pediu que voltasse, que queria sair dali porque lhe traziam memórias muito dolorosas. Acatou seu pedido imediatamente e levou-a para casa para que pudesse descansar.

Muitos anos se passaram para que o panorama político do Brasil pudesse começar a mudar um pouco. A anistia, a volta dos exilados ( pessoas de todas as espécies: políticos, intelectuais, cantores, cantoras, pessoas comuns que acreditavam poder mudar esse país, enfim, uma gama representativa do sonho de uma geração que jamais se realizou )

E até certo tempo atrás ela se culpava muitíssimo de ser uma alienada no tempo da ditadura. Comprava todos os livros que saíam sobre o assunto para ir arrematando camadas de opiniões e visões de uma época crucial para o nosso país em que ela esteve totalmente ausente, como se morasse em outro país. Época em que o sonho de mudar o país era tanto, que a juventude, ao invés da alienação para a qual foi preparada no período Médice, se lançava de corpo e alma à luta armada, confiante de conseguir ganhar o poder e levar o trabalhador brasileiro a comandar esse país com justiça e igualdade para todos.

Período em que surgiu um líder metalúrgico que inflamava o povo com seu discurso libertador do povo oprimido, do proletariado contra os interesses da classe dominante. Prometia igualdade e prosperidade para todos, como se isso pudesse acontecer com um simples estalar dos dedos, mesmo lhe faltando um.

Período em que seqüestros de embaixadores eram comuns com o único intuito de soltarem e exilarem companheiros presos porque naquela época havia cumplicidade, havia companheiros. Como os Três Mosqueteiros que na verdade eram quatro.

E eram esses companheiros que agora estavam voltando para convencerem o povo que o período de abertura chegara e queriam que todos juntos conduzissem um novo país.

Esqueceram só de contar que a condição “sine qua non” para que isso acontecesse eram as cabeças dos 3 últimos líderes que restaram, independente de suas posições: Juscelino Kubitschek, João Goular e Carlos Lacerda que acabaram morrendo de formas tão naturais, mas tão naturais que essa naturalidade toda ficou mais estranha do que natural.

Pulemos quarenta anos de história em que muitas coisas aconteceram, inclusive o impechiment de um Presidente, cassações do dinheiro público e uma infinidade de coisas mais.

2008: É exatamente por causa dessa lacuna de 40 anos que ela não mais se arrepende nem se culpa de não ter o seu dedo marcado na história do ano de 1968. Hoje, olhando o Congresso Nacional, vemos todos aqueles valentes guerrilheiros da luta armada , com um discurso inteiramente diferente, buscando apenas os seus próprios interesses e participando das mais impensadas corrupções já ocorridas nesse país cujo Presidente, que um dia fora líder metalúrgico e prometera a igualdade de direitos a todos os homens e mulheres desse país, hoje andando no seu próprio avião adornado de ouro por todos os lados, viajando mais do que governando , o que lhe permite dizer que as falcatruas do sr. José Dirceu, por exemplo, que sentava ao seu lado no Gabinete Presidencial lhe eram totalmente desconhecidas. Éramos um país sem boca. Hoje somos um país sem olhos. Mas creio que seja melhor assim. Para que os jovens de 1968 que ainda guardam no coração o velho ideal de mudar realmente esse país não morra de vergonha por ver seus velhos companheiros fazendo não só o que tanto criticavam como muito, muito pior. O Brasil foi um sonho que não deu certo. Perdoe-me sr. Fernando Gabeira. Essa conversa não inclui o senhor.


{1/25/2008}!

22.1.08





{1/22/2008}!


“ CASA BONECA “

A impressão que ela sempre tivera é que até os dois, três anos, quando não tinha ainda como se expressar, como expor uma individualidade mais delineada, sua mãe ( embora sempre enfrentando uma disputa com sua avó ) fora pródiga em afeto e em carinhos ( Com relação a seu pai, isso não lhe passa pela cabeça em idade alguma. Entre outras coisas, falta de jeito, talvez. ) . Sente isso tão forte como uma memória corporal.

E a sua memória lhe diz que tudo isso vinha com muitos beijinhos, gracinhas e canções de ninar. “ Se essa rua, se essa rua fosse minha...”

Mas só nessa fase da sua vida, como se sua mãe posteriormente se sentisse ameaçada pela possibilidade dela falar, expressar uma individualidade, personalidade, vontade própria e as duas deixassem de ser aquele dois-em-um. E não pode dizer que sua mãe não tinha razão. Mesmo porque essa é a ordem natural das coisas . É como se o cordão umbilical tivesse se estendido até os seus três, quatro anos de idade e depois sido bruscamente cortado, complicando um pouco o imenso amor que sempre houve e haveria entre elas.

Na época em que tinha um, dois, três anos, havia uma casa de roupas para crianças chamada “ Boneca “ . Era uma loja de roupas caríssimas, impensáveis para o baixo padrão social e financeiro que tinham naquela época. Pois sua mãe ia para a frente da loja com papel e lápis e não só desenhava os modelos dos vestidos como cada um dos diferentes tipos de bordados que os compunha. E depois reproduzia tudo em casa, à mão e na pequena e rústica máquina de costura, comandada a mão, uma vez que naquela época nem se sonhava em máquina com motor.

E era assim que ela, inteiramente fora do seu padrão social, vestia os mais lindos vestidos da sua época. Lembra de um, especialmente, em que mãe costurara rendinha por rendinha, do início ao fim do vestido: um belíssimo vestido todo de renda branca.

No carnaval, era a mesma coisa. Fazia cada fantasia linda para ela. Depois dos sete anos, quando a colocara no balé, aproveitava as fantasias da festa de final de ano, que eram lindas mas até então, ela fazia cada uma mais bonita e original do que a outra. Lembra-se de uma de gatinha, que tinha um rabo enrolado. Foram para o baile do Teatro Municipal, que era um verdadeiro luxo. E ela passava o tempo todo que brincava ( quer dizer, que seguia a roda que girava dançando ao som das modinhas e lindas marchinhas daquele tempo ) , a se defender dos meninos que não resistiam a ficar puxando-lhe o rabinho.

{1/22/2008}!


II

O fato é que a partir dos quatro anos, quando foi colocada no melhor jardim de infância que havia ( ao menos na Tijuca ) naquela época , o do Instituto de Educação, sua vida já era sentida inteiramente diferente.

Lembra-se, por exemplo, da vontade de chorar com que tocou na primeira – por isso importantíssima – apresentação da bandinha da sala rosa, na qual tocava pratos. Todos os pais estavam presentes, menos os seus. Segundo as explicações deles, eles trabalhavam fora e lhes era impossível sair do trabalho ao menos uma vez por ano para assistir a apresentação da bandinha ou qualquer outro tipo de atividades escolares para as quais eram requisitados.

Isso promoveu nela uma das primeira sensações de desamparo, de abandono, que seriam algumas das características da futura depressão, muitos anos depois.

Não havia pai, não havia mãe, não havia nenhum olhar voltado para ela enquanto tantos outros se voltavam para as outras crianças.

No mesmo jardim de infância tinha um amigo, ou melhor, um parente próximo com o qual brincava muito. Um dia seu pai lhe disse que esse menino morrera queimado dentro de uma casa de madeira ou coisa assim. Lembra-se com clareza que ficou com inveja desse menino cujo rosto nunca mais lhe saiu da memória.

Agora, que completou 58 anos , abraçou definitiva e inteiramente a Doutrina Kardecista, como seu avô Frederico, o grande amigo da sua infância, entende que tudo isso obedece a uma ordem Divina. Tinha que ir aos poucos, desde criança, se acostumando a alguns tipos de sofrimentos porque a maturidade iria exigir-lhe estofo para isso tudo que ficou guardado em alguma célula do seu corpo, porque dos 23 aos 43 anos ( início da depressão ) fora extremamente feliz, de uma alegria contagiante, e aproveitou essa felicidade toda para fazer grandes, maravilhosos amigos, que considera o maior presente que Deus lhe deu, principalmente os que a aturam até hoje, com todas as suas mazelas porque a conhecem dos dois lados, não a julgam e a amam por inteiro , da maneira como ela os ama também.

Mas depois de 1993, foram 14 anos que exigiram dela muita força, muita coragem, muita intimidade com essa área do sofrimento.

Não tem nada a reclamar de Deus, ainda mais agora, que entende mais da ordenação que é dada por Deus ao mundo e com a qual se sente ìntimamente incorporada. Hoje, já tendo 5 anos sem depressão, a dor-de-cabeça que tinha ido embora e ameaça voltar , doendo um pouco todos os dias, tem uma visão inteiramente renovada do mundo e buscando subsídios na querida e amorosa Casa de Estudos Espítas Rita de Cássia e Maria de Nazaré, busca também- eu diria principalmente – a sua reforma íntima que os 10/12 de terapia vão ajudar como base mas é lá que será feita a definitiva arrumação. Finalmente eu encontrei o meu lugar, onde todos podem nem se falar mas todos olham e visam o mesmo objetivo se seguem o mesmo caminho: A estrada que leva a Jesus.

O que eu acho mais interessante abraçando o Kardecismo com toda a entrega como abraço agora é que meu avô , que fez 5 anos de seminário e saiu porque se apaixonou pela minha avó, logo em seguida, por volta de 1920, também abraçou o kardecismo, o que era uma ousadia para aquela época. Acho que ele, cansado de me ver batendo cabeça pela vida, me pegou pela mão , como fazia quando criança e entregou-me à querida Cilene, na porta do Rita, mesmo estando eu ainda com a saúde tão debilitada.

Deus, Jesus e os amigos espirituais Daquela Casa Abençoada vão fazer o que sua mãe fazia na “Casa Boneca”: copiar do meu perespírito são a minha saúde e colá-la no meu corpo físico para que eu possa, estando um pouco mais sadia, ajudá-lo e servi-lo em suas tarefas no mundo dos homens. E cuidando das pessoas necessitadas ( como a Jô ) com o mesmo carinho que eu gostava tanto de receber de minha mãe quando tinha dois, três a quatro anos. A vida é um bumerangue. Experimente ser do bem, fazer o bem e verá que de alguma forma, rapidinho ele volta pra você. Esse bumerangue faz parte da magnitude, da infinita misericórdia Divina.

{1/22/2008}!

16.1.08

JOVELINA, A TÃO QUERIDA JÔ

Não a conheci logo que mudei para o Leblon, em 2003, porque nessa época não reconhecia nada , nem a mim mesma. Dois anos depois, de idas semanais ao Frei Luiz , ainda não me reconhecia mas a depressão havia passado e sem ela era como se tivesse saído do Hades. Foi então que ensaiei , nos meus dias melhores, as andadas pelo Leblon. Gostava ( e ainda gosto ) de ir pela orla bem cedinho e voltar pela Ataulfo, para ver o movimento do comércio se ensaiando para abrir.

Foi assim que a vi pela primeira vez. Sentada num banco do outro lado da rua , em frente à Rio Lisboa, cheia de malas por todo lado, quadros, sacos de plástico, e falando sozinha. Era uma figura estranhamente interessante, supunha que alta, mais pra gorda que prá magra, negra, deixando ver, por baixo do turbante colorido que usava, seus cabelos igualmente brancos e pretos, que me pareceram curtos. Dessa primeira vez fiquei olhando, louca para me aproximar dela mas ela estava tão empenhada na sua conversa solitária que não ousei interrompê-la.

Não me contive em voltar no dia seguinte e lá estava ela do mesmo jeito mas em silêncio, olhando de um lado para o outro. Aí tomei coragem e me aproximei , com aquela conversa de carioca : “ – Oi, tudo bem ? “ Aí ela levanta a cabeça e me olha com olhos que contrastam com sua boca. Olhos com catarata, com uma enorme tristeza dentro deles e um riso quase infantil , uma vez que só tem 4 dentes na parte superior mas são tão francos, tão alegres, que parecem uma dentadura inteira.

Respondeu-me com naturalidade, como se já me conhecesse há muito tempo. Mostrou-me alguns de seus quadros e fiquei muito impressionada com a quantidade e a qualidade de seus florais, com a alegria de viver que transparecia através de suas cores vibrantes, seus tons vivos que expressavam uma verdadeira liberdade na sua combinação das cores e uma felicidade que não se sabe de onde vinha. Estava sempre rindo e mexendo com as pessoas que passavam na rua, algumas parecendo mesmo seus amigos.

Mas da mesma maneira que falava normalmente, de uma hora para outra enveredava por caminhos que só ela conhecia e que por vezes era difícil de acompanhar. Dizia que era a Rainha de Sabá , filha do Rei Arthur e que a Rosinha havia roubado tudo dela, por isso ela tinha que viver daquele jeito. E quando começava esse discurso isso ia longe. Ouvia-a um pouco , por respeito ao que era nìtidamente uma doença , mas depois de um tempo eu chegava ao meu limite, dava-lhe dois beijinhos e dizia que estava com pressa pois tinha muito a fazer.

Mas habituei-me àquela rotina de ver a Jô, saber como estava , e acabei me acostumando , sabendo que no início seriam conversas agradáveis até, uma vez que tinha um português corretíssimo , até que ela enveredava no seu mundo particular , eu dava um tempo e ia embora. É claro que cada vez que a encontrava dava-lhe o suficiente para pelo menos um almoço , por isso tinha que diminuir essas idas tão diárias pois estava numa fase difícil também financeiramente.

Quando eu passava mal e ficava dias na cama , ficava preocupada com ela, com o que ia comer e pedia à Denise – que também já se tornara sua amiga – que levasse a minha parte até ela para que ela não ficasse sem o almoço. Sabia que muitas pessoas a ajudavam, principalmente o pessoal dos táxis em frente à Rio Lisboa, mas mesmo assim me preocupava.

Logo que melhorava , lá ia eu procurá-la de novo. Agora não ficava só naquele banquinho. Largara as malas não sei aonde e fora para outro banco com apenas um carrinho. Uma vez , por volta de 17 horas, encontrei-a arrumando um papelão bem grande na porta do Itaú, na esquina da Aristides, ao lado do BB Lanches. Perguntei-lhe o que estava fazendo ali e ela me disse que quase sempre dormia ali mas só até duas e meia da manhã, quando apagavam as luzes. Aí ela tinha que procurar outro lugar iluminado, porque ficar em lugar escuro era muito perigoso, por causa de estupros.

Fiquei impressionada com isso e ela me disse, com a maior sanidade, que eu não tinha idéia do que acontecia à noite nas ruas. Tanto que mesmo no verão ela preferia sempre usar calça de moleton para dificultar o assédio. Meu coração se apertou e só não fiquei pior porque Deus deve saber o porque essas pessoas levam uma vida tão miserável. No caso da Jô, creio que essa meio-loucura que a ataca , na verdade é um refúgio para toda a dor da realidade. Porque os delírios dela são delírios de poder. Ela é a Rainha de Sabá, é filha do Rei Artur, é dona de uma frota de aviões que pode nos levar à Bahia todos os dias, basta a gente querer que tem casa grande e comida farta nos esperando, e por aí vai. A dor da miséria é tanta que já que é para pirar ela pira logo no poder, na pujança.

Ninguém sabe direito a história dela. A Denise disse que a conheceu quando ela ainda trabalhava na casa de um senhor estrangeiro. Era normal, se vestia normalmente, chegava a ser bonita. Até que ele foi embora sabe-se lá para onde e ela passou a trabalhar revendendo roupas de uma butique de uma amiga, que carregava nas malas. Até o dia que roubaram as suas malas e foi aí que ela se transtornou. Nesse dia parece que deu trabalho. Gritava, dizia que a tinham roubado, como é que ela ia pagar aquilo tudo, enfim...A partir daí passou a morar nas ruas e o símbolo das malas – que me parece a dor da perda – ficou.

{1/16/2008}!












II

Se alguém quiser vê-la feliz, é só passar numa papelaria, comprar umas 3 telas e umas tintas acrílicas e dar para ela. Ela fica numa felicidade só. Ela se sente uma pintora de verdade e para mim ela é. Quem expressa aquela sensibilidade toda , aquela alegria toda nas cores dos seus florais , para mim é uma pintora. Que dane-se a técnica e que viva a alma ! E é através dos quadros que pinta que podemos vislumbrar os momentos de sua alma. Há quadros bastantes sombrios. Não os florais, que só pinta quanto está de bem com a vida. É como o seu sorriso. Como ela tem andado muito triste, eu peço:” Jô, dá um sorrisinho prá mim...” Da primeira vez ela disse “- Dou, porque é pra você “ Mas saiu um sorriso muchocho , muchocho. Da segunda vez não fez concessão alguma. Olhou para mim e disse: “ – Sabe o que é? É que eu só gosto de rir quando estou com vontade “ . Eu disse: “ – Você está certíssima. Quem está errada é a vontade, que está atrasada e não chegou ainda. Mas vai chegar. “

Mas ando muito preocupada com a saúde dela. Como agora virou andarilha e não pára em lugar nenhum, tenho que ficar procurando percorrendo os quarteirões entre a Venâncio Flores e a Aristides Espínola , até a encontrar. No outro dia estava dentro da papelaria. E percebi que seus olhos estavam mais foscos do que o normal. Eu falei: “ – Jô , você está enxergando alguma coisa? “ Ela disse: “ Tô, minha linda, tô “ Aí a moça da papelaria falou : “ Tá nada. Você sabia que ela é diabética e o açúcar dela está lá em cima? Só que não quer se tratar “ . Eu disse : “ – Jô, eu não acredito ! Você com diabetes e tomando coca-cola todo dia ! Nós vamos dar um jeito nisso “.

Aí falei com uma amiga, diretora do Rita, se o médico que atende na nossa sede da Rocinha, não poderia atendê-la. Ela ficou de ver e depois falar comigo. Quando eu falei para a Jô que ia levá-la ao médico e ele ia me ensinar a dar insulina ela deu um pulo do banquinho dizendo que preferia morrer da doença a tomar insulina. Que a Rosinha , com essa história de insulina, tinha trocado todo o sangue dela , que era sangue de rainha e dado o dela para ela. Ela não mais a médico nenhum. E quando ela bota uma coisa na cabeça, não há cidadão que tire.

Só me restou, muito sem graça, agradecer à diretora do Rita, que ia interceder por ela e ficar como estou agora, sem saber o que fazer.

Ela tirou da cabeça dela um tal de dr.Sérgio que disse que a catarata dela está ótima, que o diabetes está baixando, que ela não precisa se preocupar. É claro que esse dr.Sérgio só existe na cabeça dela. E como se nega a ir ao médico, a tendência é a catarata aumentar e ficar cega.

E o que será desses olhos que nos olham tão docemente, tristes mas nos passando fé , esperança, alegria, vontade de viver. Quantas e quantas vezes eu ia visitá-la e ao invés de eu consolá-la era ela quem me consolava , me passava força, dizia para eu não desistir que Deus estava comigo...

A história que só ria quando estava com vontade foi a última vez que a vi. Estava sem mala nenhuma, sem carrinho nenhum, sentada num outro banco, falando sozinha. Eu, que já estou bem melhor, graças a Deus, cheguei abrindo os braços e dizendo : “ – Cadê a minha linda? Eu quero um beijo “ E ela fez uma coisa que nunca tinha feito. Disse-me para não beijá-la porque ela estava muito suja. Como vocês vem, essa consciência ela tem.

Já comprei os acessórios para a mochilinha da Jô: shampoo, condicionador, sabonete, desodorante, perfume, camiseta , só falta uma calça ( o que é mais difícil porque ela é grande e gorducha ) . Já combinei com o rapaz que toma conta do posto 12 . Vou comprar uma luva ( acharam melhor ) e vou ver se consigo toda sexta-feira dar um banho na Jô para deixá-la ao menos por uns dias com um cheiro e uma aparência de dignidade que todo ser humano merece. Resta saber se ela vai topar...Esse é o problema. Porque – felizmente – ela não tem essa de coitadinha, de vítima do universo. Tem firmeza de vontade, determinação mas muita , muita bondade dentro daquele enorme coração.

Não é à toa que, indo ao meu orkut, poderá ver a comunidade da Jovelina, com mais de sessenta pessoas. É a nossa Jô , Jovelina a pessoa mais generosa e querida do Leblon.

{1/16/2008}!

14.1.08


{1/14/2008}!




Ela o considerava uma grande fonte de sabedoria e o procurava sempre que a tristeza não pesasse tanto a ponto de não a permitir chegar até ele.

Logo que chegava cumpria um ritual – era cheia de rituais – de olhar primeiro tudo , da esquerda para a direita e quando chegava naquele pontinho de pedra que amava tanto e lhe ensinava como devia ser a cada dia, ia subindo o olhar devagarinho até o alto do morro “ Dois irmãos “ com quem mantinha também um segredinho.

Só depois olhava para o sol rapidamente, fechando os olhos e o trazendo para o centro de sua cabeça, um pouco acima do alto das sobrancelhas, ponto esse chamado de “ O Terceiro Olho “ . E ficava ali , quieta, enquanto ele se mantinha lá.

Depois é que procurava o seu costumeiro banquinho nos degraus do calçadão onde olharia mais o mar, o céu, as andorinhas em seu organizado vôo pelos céus, a areia, até que chegasse a hora em que começava a rezar.

Havia feito na vida tudo que queria. Disso não podia se queixar. Aliás não podia se queixar de nada, pois Deus tinha sido extremamente generoso com ela, mesmo nos momentos de provas e expiações. Fez bobagens, gritou, esperneou, mas teve que amadurecer desde bem cedinho porque mais tarde teria que estar pronta, amadurecida, com estrutura definida para lutar com tanta coisa que viria. E quando essas coisas vinham adorava ir conversar com o mar.

Primeiro agradecia a Deus a sua beleza, expressada na beleza infinita da sua criação. O mar, o céu, a areia, o sol, as flores que nasciam nas frondosas árvores que via pelo caminho. Um dia desses nem acreditara mas não é que vira um pé de jaca em pleno Leblon? Ficou com desejo de comer doce de jaca.

Em cada uma dessas maravilhas podemos constatar a infinita generosidade e grandeza de Deus nesse planeta que está louco para se transformar em planeta da transformação para ver se os homens enlouquecem menos, se matam menos, se ao invés de matarem seus irmãos os amem como amam a si mesmo. Mas sinto que não estamos muito longe de chegar lá. A minha geração não verá isso, mas quem sabe a próxima ou a próxima da próxima?

Mas de todas as maravilhas de Deus eu amo mais o mar. Pela idéia de infinitude dos seus horizontes, pela profundidade que suponho ter nessa infinitude, pela ondazinha que chega aos meus pés depois de ter caminhado sabe-se lá por quanto tempo e por quanto mares e por quantas marés. Acho aquele ondazinha uma enorme expressão de força e vitalidade, como se ao encostar nos meus pés, ela me futucasse, olhasse para cima e me dissesse: “ Ei, você aí !! Eu consegui , viu? Eu consegui !! “ E depois lá vai ela toda animadinha mergulhar no mar de novo para recomeçar a sua empreitada para quem sabe tocar os próximos pés na Austrália ( leve um beijo para o meu amigo Heraldo ) ou em terras Lusitanas.
Ela não se importa para onde. Se entrega. Ela simplesmente vai. Por isso acho que ao tocar meus pés deixou em mim uma força, uma determinação infinita e secular e já que ela me tocou assim eu devo buscar em mim um pouquinho dessa determinação porque afinal de contas foi a mim que ela escolheu tocar. Nem isso foi por acaso.

Quando tenho a coragem ( confesso que cada dia mais rara ) de entrar no mar a força que vem da temperatura de suas águas, do impacto quase elétrico no meu corpo, me parece um verdadeiro passe espiritual. Como seria bom se as pessoas que passam o dia todo na praia prestasse atenção nisso, a cada mergulho. É como um passe, uma limpeza espiritual, um batismo.


II

Gosto também de ficar sentada no meu pedacinho no calçadão e ver o que o mar está me ensinando de comportamento naquele dia. Porque há a grande pedra que é o pezinho do morro “Dois Irmãos “ ( É Doius Irmãos, não é? Ou será que troquei o nomezinho do morro ? ) . Dependendo do humor do mar ele bate com vigor na pedra e vence-a, passando por cima a todo custo. Mas quando está mais calmo, mais tolerante, só algumas ondinhas passam por cima ( ele não pode perder a majestade toda, ora essa...) mas a maioria tem a humildade de vir calmamente contornando a pedra para atingir o mesmo lugar que atingiria se viesse de sopetão. É o dia em que o mar está lânguido, calmo, sensual. E esse comportamento do mar diante da pedra me dá sugestões para o meu dia.

E uma coisa muito importante: Não deixo nunca de cumprimentar Yemanjá, que sinto que me aparece linda, enorme, no fundo do horizonte e me reverencia quando digo: “ – Salve, salve , Yemanjá, salve Rainha do Mar ! “ . Sinto que ela fica grata por alguém se lembrar que afinal de contas lhe deram esse reino para ela tomar conta e só se lembram disso no final do ano. Aí sujam a praia toda com um monte de presentes que ela nem tem onde guardar e só fazem pedir, pedir, pedir. Só nesse dia se lembram de cumprimentá-la. Por isso acho que ela gosta do meu cumprimento diário.

Tenho muito respeito por ela. Imagine tentar equilibrar aquela diversidade toda que mora no fundo do oceano ! É como a gente, como a nossa cabeça, tentando o tempo todo não pirar . Se ela tem espécies de peixes, navios naufragados, tesouros afundados, pedidos espalhados por todos os cantos, nós temos nossos problemas, nossa constante ( ainda bem ) vontade de mudar, de fazer coisas novas, de crescer, de evoluir. Acho a profundidade do mar muito parecida com a nossa profundidade.

Quantos lenços já acenaram para o horizonte do mar...Uns por amor, porque seus namorados estavam viajando e a viagem é longa porque o mar não tem pressa pra nada. Outros porque o pobre mar também tem que aturar tempos de guerra, com lenços mais desesperados acenando , sem saber se quem ia , iria voltar.
Isso sem falar nos tiros que saiam dos navios e que violavam inteiramente o silêncio e a traqüilidade do mar.

Ainda bem que você é generoso e tolerante com essas tolices do ser humano que não levam a lugar nenhum, só sujam as suas águas com o óleo que sai dos navios como a raiva que sai daquelas cabeças insanas.

Mas quando visito você não penso nessas vissicitudes da vida e sim na sua grandeza, no quanto o seu infinito do seu horizonte tem a nos ensinar se passarmos algum tempo olhando para ele.

E não podemos esquecer que somos de natureza quase semelhantes, uma vez que nosso organismo é composto de oitenta de água e vinte por cento do restante. Talvez por isso você saiba tão bem receber as lágrimas que choramos com você, sabe nos fazer ninar quando boiamos, sabe brincar conosco quando a gente bobeia e você nos dá um arrastão. Além de tudo, ainda é um grande companheiro.

Te reverencio como reverenciaria uma Magestade. E quando vou embora , saio pela vida pensando verde.


{1/14/2008}!

4.1.08


{1/4/2008}!


OBS: O texto que vem a seguir, além de muito longo, é dedicado a uma pessoa que me foi muito,
muito especial. E especial a outras pessoas também. Mas eu me vejo na obrigação de avisar
que quem não o conheceu poderá achar a leitura cansativa . Vocês decidem.

VICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPENVICPEN

Uma homenagem com toda a minha alma à lembrança de VICTOR PENTEADO

Carnaval de 1974. Carnaval bom, como era o de antigamente ( hum...acho que isso era uma frase da minha avó ). E melhor ainda na gafieira Elite, que às sextas-feiras antes do carnaval ( ou seria aos sábados?) abandonava sua função de gafieira para se transformar no baile gay mais animado da cidade. E embora se pudesse subir nas mesas para dançar, tudo era dentro de muito rigor, de muita ordem. Não me lembro de ter visto uma só vez alguma briga sequer começar.

E tinha o sr. Manoel, garçom com cara antipática e coração de ouro, que sempre nos reservava uma mesa na primeira fila para que pudéssemos não só aparecer ( Vamos combinar que eu tinha 24 anos. Com 24 anos quem não quer aparecer, brilhar, ser a dona da festa? ) como termos uma visão perfeita de tudo que acontecia no salão.

Há coisa de pouquíssimo tempo morava com a Sueli- minha namorada do momento - pois minha mãe descobrira minha opção sexual e antes que ela me mandasse embora fui eu mesma com as minhas próprias pernas e como dizia a música de Elis , “ com meus livros, meus discos e nada mais “. Estudava Portugues-Literatura na Gama Filho. A única coisa que lastimei foi ver o meu curso escoar pelo ralo. Foi quando lançaram um concurso de música em que as quatro primeiras músicas ganhariam uma bolsa integral. Liguei imediatamente para o Mauro , que conhecera e me tornara amiga e parceira musical no carnaval anterior, no Monte Líbano e falei-lhe sobre a importância disso para mim. Fizemos a música , ficamos entre os quatro primeiros ( não tinha ordem , primeiro, segundo...) e eu pude concluir meu curso às custas da minha música, sem o auxílio de minha mãe.

Morávamos num delicioso conjugado na rua Bolívar, em Copacabana ( daonde ia até a Piedade –onde era a Gama Filho, dormindo e babando em cima das pessoas nos dois ônibus que pegava , pois as aulas começavam às 7,00hs ) , e começava para mim uma época muito ,muito feliz. Completamente dura, de só dar para comer carne uma vez por semana, vinho, só de garrafão e assim mesmo aquele bem vagabundo que deixa a boca manchada durante toda a semana. Dura mas feliz. Eu estava apenas começando a descobrir a vida e estava muito feliz por poder viver a vida que escolhera.

Mas voltemos ao Elite, àquele especial carnaval de 1974. Eu tinha 24 anos, não conhecia ninguém e até me abismava quando a Sueli me apresentava fulano de tal que se eu visse na rua podia jurar que não era gay porque nada tinha desse tolo estereótipo associado ao gay.

Nós duas estávamos de piratinha, com meias trançadas e tudo o mais. Uma graça de fantasia. E aos 24 anos, por que não dizer? Nós também estávamos uma gracinha. Pena a manga ser comprida ( ficava muito mais bonito, ora ) porque eu só faltava desmaiar de tanto calor. E brincávamos entusiasmadíssimas sobre a mesa, copo de cerveja na mão, cigarro na outra, quando ela dá um grito e diz o nome do amigo que parecia não ver há algum tempo porque ele também assumira sua postura sexual há pouco tempo e teve – como nós – que mudar de casa, providenciar móveis ( essa parte não nos coube. Não tínhamos dinheiro para isso ) , trabalhar, enfim, essas coisas chatinhas do cotidiano. Até que ela nos apresentou.

Quando olhei para aquele homem lindo, queimado de praia, com um sorriso meio irônico, gestos extremamente particulares e nada femininos, como se devassassem você para tirar uma conclusão de que tipo de pessoa você era... Fiquei simplesmente presa àquele olhar do qual não conseguia me desviar e me deu um calafrio e uma certeza mais do que absoluta: Nós faríamos parte eternamente do destino um do outro até que um dos dois morresse e até mesmo depois da morte. Não conseguia dizer nada, não conseguia me mexer. Ele também se alterou na naturalidade de seu comportamento por alguns instantes mas o entusiasmo da Sueli em lhe fornecer nosso endereço e telefones do trabalho interrrompeu o que para mim foi um instante mágico, que na minha vida nunca mais se repetiu.

Nos despedimos de forma meio confusa e o baile continuou sem que nos víssemos de novo. Aquele era o último dia do carnaval de 74.

Algumas semanas se passaram e um dia de semana desses qualquer, fomos ao supermercado da esquina e ao voltarmos encontramos um bilhete debaixo da porta. “ Estive aqui e não encontrei vocês. Mas eu volto “ Assinado: Fulano de tal

Fiquei profundamente triste com aquele desencontro mas não deu para ficar triste muito tempo porque nossa casa era mais ou menos um ponto de partida dos vários amigos que fizemos , antes de ir para a noite. E foi chegando um atrás do outro e acabei por me distrair. Mesmo por que diabos ficaria eu, depois de ter virado o mundo do avesso para bancar minha sexualidade ficar tão mexida com a figura de um homem, coisa que eu detestava?

O tempo passou e ele não voltou. O que voltou foi o tempo de renovarmos ou não o contrato com o apartamento que morávamos e eu não queria mais morar lá. Tinha feito um concurso interno no banco, sido aprovada, ( Na hora que soube que passara fiquei arrasada. Adeus mestrado de Teoria Literária. Mas benvindo salário triplicado . ) e estava ganhado infinitamente mais, podendo dar uma trégua para a Sueli e bancar um apartamento melhor.

E encontramos um apaixonante, dentro das nossas posses, é claro. Era um conjugado grande que foi dividido numa pequena saleta e num quarto que até era espaçoso. Alugamos felizes da vida, mesmo porque o fato do apartamento dar para o Pavãozinho em 1975 não representava nada mais do que uma paisagem bucólica, um gato que vinha namorar todos os dias a Babbie. ( gata que achei na rua numa madrugada de porre, depois do jantar no velho e bom “ Gôndola “ – que hoje não existe mais, infelizmente - pequena e toda arrasada e levei para casa para cuidar da saúde dela. Morreu 16 anos depois ) O velho e bom gatão de rua estava totalmente apaixonado, de forma que tínhamos uma espécie de quintal, com árvore, passarinhos e tudo mais, mesmo que não tivéssemos acesso. Resumindo: um pequeno paraíso.

Um dia, descendo de elevador ( morávamos no segundo andar ) quem vemos entrar no elevador? Ele. Diante de nossa cara de espanto disse, sempre naquele seu tom meio irônico : “ - Por que o espanto? Eu moro aqui ! “ E nós, quase que em coro, respondemos: “ – Nós também “

E a partir desse encontro não nos separamos mais nos próximos onze anos. Todos os dias, quando voltava do trabalho, passava antes lá em casa ( morava no sétimo andar ) , e por lá ficava. Jantava, tomava alguns uísques, a Sueli ia dormir porque entrava às 07 horas no trabalho e nós ficávamos conversando até umas 2 da manhã, muitas vezes com as pessoas que iam chegando, porque naquela época ninguém tinha telefone muito menos celular, de forma que as pessoas apenas iam, sem avisar. E nossa casa era um verdadeiro entra-e-sai, o que na época me agradava muito.

E aos sábados, como meu apartamento ficava menor pela divisão, íamos para “ a cobertura “ ( casa dele ) fazer o que uma pessoa muito , muito querida que hoje mora na Austrália ( Heraldo ) chamava de “Sarau sado-masoquista. “ Um amigo nosso da época tocava violão e cantava muito bem , inclusive fizemos muitas músicas juntos e esse sarau invadia as noites às vezes invadindo o dia.

Uma vez fomos cantar na praia. É claro que sem nóia nenhuma de assaltante e voltávamos para casa às quatro, cinco horas, bêbados de cair sem que nada ameaçasse aquela liberdade e felicidade toda. Acho que esse foi o melhor tempo da minha vida. Hoje não faria mais sentido mas na época , para quem tinha entre 20/30 anos, tínhamos uma qualidade de vida excelente,uma roda de amigos enorme e uma cumplicidade permanente.

E uma conta bancária bem pequenininha , na maioria das vezes no vermelho. Mas quem se importava com isso? De vez em quando ele chegava e dizia: “- Assina aqui.” E eu assinava sem ver. Confiava nele cegamente. E daqui há alguns dias recebia uma boladinha de dinheiro nas minhas mãos. O velho e bom papagaio, que fazíamos ora no meu nome, ora no nome dele.

Depois mudei de namorada e de morada. Fui para a Urca com a louca mais linda que já conheci e adotamos um poiter a quem demos o nome de Atman que fez misérias com a minha vida ( ambos: ela e o pointer ) mas que não me arrependo de nada.

Nessa época da Urca trabalhava no Banco do Brasil da Nossa Senhora da Paz , meu apartamento era uma gracinha, de frente para o mar da Urca, enfim, tudo mais do que em cima.

Até que exausta de encherem meus ouvidos que o meu cachorro ( e sua nova irmã, a Sama, uma cadela pastora alemã linda, e muito , muito boazinha ) não tinham espaço para brincar e depois deles terem destruído meu sofá de couro em quatro dias que precisei ficar no hospital por não ter ido ao aterro ( onde os levava para brincar todos os dias ) e nem nas pedras da Urca ( onde os levava para nadar e ele nadava por quase uma hora, sem se cansar enquanto ela cansava logo e ficava na pedra só admirando. Ele era o seu ídolo. ) , troquei a Urca pela Pedra de Guaratiba onde meus pais construíram uma casa para mim e fui trabalhar em Campo Grande, agência que às 04,30, hora de fechamento, a agência era invadida pelo povo da marinha ( dizíamos que tinha furado o pneu do navio ) e éramos obrigadas a atender um por um , até acabar, o que era por volta de seis, sete horas.

E aí, sem mais nem menos, ele mudou-se para a Barra, para um prédio novinho, muito mais perto de mim do que se morasse em Copacabana.

E assim era sempre. Sem que a gente se desse conta, ( porque a gente não dava mesmo ) sempre arranjávamos um jeito de não ficarmos separados. Se eu fizesse uma coisa, logo, logo, ele fazia uma parecida. Quando comprei as duas gatinhas siamesas ( Pupi e Ula , que viveu 22 anos ) ele logo comprou o Narciso, um gato que mais parecia um cachorro , de tão inteligente que era. Morreu envenenado na grama de Arraial do Cabo. Ele ficou arrasado. Gostava realmente do bichinho. E assim transcorreram 11 anos em que nos falávamos várias vezes por dia ao telefone e algumas na semana pessoalmente. Sempre com o embrião do “ Lobo da Estepe “ dentro de mim, isso era absolutamente surpreendente.

Apesar de ser uma pessoa extremamente generosa, amigo leal de seus amigos , capaz de socorrê-los em qualquer situação difícil , era também de uma sinceridade voraz que a maioria das pessoas não estava acostumada a lidar e tendiam a ver como agressividade ( era mais fácil, porque os eximia da responsabilidade cabendo a ele sempre a culpa. ) , quando na verdade era apenas uma pessoa extremamente verdadeira. Com ele não havia meio termos. Se fosse com a sua cara , se esmerava em conquistar sua amizade com a imensa generosidade e carisma de seu coração ( mas ninguém, nem ele podiam desvendar esse terrível segredo. Tudo isso é coisa de gente mole ) e com o glamour e a sedução nos quais era simplesmente imbatível. Se ele quisesse, era impossível não ser conquistada por ele. Por isso tinha muitos amigos mas também – não sei se podemos chegar a tanto – vários inimigos. Foi com certeza a pessoa mais verdadeira, mais sedutora, mais glamourosa, mais amiga que já conheci.

Esse temperamento um tanto explosivo lhe rendeu atritos verbais que na verdade ele adorava, com a inteligência que tinha e dono de mil argumentos, era difícil vencê-lo num eventual confronto. E o tom irônico que dava aos seus debates tornava irresistível vê-lo duelando numa batalha verbal. Às vezes discutia só para ver até aonde o outro podia ir.

Por incrível que pareça em 11 anos nunca tivemos um atrito sequer. Eu o conhecia, aceitava-o como era ,tinha por ele o que é básico em qualquer tipo de relacionamento – respeito e admiração - na verdade o adorava desde o primeiro momento que o vi e acho que o mesmo acontecia com ele que tinha um detalhe que eu não tinha. Era profundamente ciumento. E ai de quem dissesse isso para ele. “ –Sai fora, cara. Tá maluco ? “

Porque sempre foi muito difícil para ele falar de seus sentimentos. Ele era como era e pronto. Quem o aceitasse , ótimo, teria o mais leal e disponível dos amigos, não era necessário ficar discursando sobre isso ( a não ser às vezes, no final de um porre, às 5 da manhã ) quem não o aceitasse que passasse muito bem e não enchesse o saco. Mas o fato é que nunca comentei com ninguém ( aliás nunca comentei com ninguém nada sobre ele ) o quanto achava bonitinho o ciúme que ele tinha de mim. Enquanto não arranjasse uma encrenca com o pobre novo amigo, ficava lá, ruminando os dentes, pensando em como ia começar. E parecia mesmo um touro bravio, ruminando os dentes e dando volta nos próprios pés, movimento característico de quando estava irritado.

Mas depois de 11 anos sem um atrito sequer, tivemos nossa primeira briga. Eu passara uma semana na sua casa porque fazia um curso para caixa-executivo na cidade e morava na Pedra de Guratiba ( ele ainda não havia se mudado para a barra ) e ele tinha comprado pra mim tudo que eu gostava, inclusive manteiga, porque ele só comia margarina, que eu odeio.

O problema é que minha cachorra Sama estava grávida e a Miriam me ligou desesperada, dizendo que ela estava comendo os cachorrinhos. Fiquei em pânico, louca para ir para casa mas ele estava em início de namoro, naquela de ficar 4 horas no telefone. Dei um, dois, três, quatro toques e ele só dizia: “ – Já vou “ .

Aí eu tive um ataque de choro muito próximo da histeria, e quando ele me viu chorar ( nunca tinha visto ) não sabia o que fazer , dizia que já estávamos indo e quanto mais ele falava , mais eu chorava de soluçar. Ele me deu um calmante, completamente perdido que estava, sem saber o que fazer com aquela situação, como nunca soube o que fazer com situações que envolvessem sentimentos.

Hoje eu sei que tudo que queria era saber me abraçar e pedir desculpas, dizer que tudo estava bem, nós já estávamos indo mas ele não sabia fazer isso. Antes de me conhecer não sabia ter a menor expressão de carinho. Talvez esse tenha sido o maior marco da nossa amizade ou seja lá o nome que tenha essa fortíssima relação que nos uniu. Porque eu também era assim antes mas aprendi com o Reginaldo – compadre e amigo querido do meu coração – que o toque também faz parte , o quanto um abraço é bom, o quanto dar colinho quando o outro está carente ajuda e ajuda muito. Eu diria que com o Reginaldo eu consegui rasgar meu coração e sentir como é bonito se dar ao outro, ao amigo, de coração aberto. E foi isso que eu aprendi com o Reginaldo que com ele veio a fazer toda a diferença. Eu sentava no seu colo, me agarrava ao seu pescoço, dava um monte de beijinhos, e ele – adorando – dizia daquele jeito tão dele “ – Pó parar, não gosto dessas coisas não...” E quanto mais ele falava mais eu fazia e mais ele gostava e reclamava mais ainda.

É claro que não vai dar para contar a infinidade , a riqueza de detalhes que foi a nossa linda e única relação. O fato é que depois dessa briga, eu fiquei muito mexida por ele ter brigado comigo também. Porque para mim nós éramos diferentes de tudo, intocáveis, diferente de todos os meus amigos e pensava que fosse isso para ele também. E apesar de nos freqüentarmos ainda por uns 2 anos – acabamos nos afastando por 13 longos anos , o que pra mim foi a morte e sei que para ele também. Mas para consertarmos direitinho essa história teríamos que descer a níveis de sentimentos muito profundos que nem eu nem ele queríamos tocar. Optamos por nos separar. E eu fiquei durante 13 anos sonhando com ele absolutamente todas as semanas.

Por outras questões, por ter ido morar em Berlim, afastei-me do Julinho também mas essa foi uma reaproximação muito fácil, pelo temperamento dele – que arrastava o meu – e pelo amor que nos unia desde que esse pirralho agora com 34 anos tinha 5 . E numa noite dessas, em que estávamos lá em casa bebericando, o Julinho falou: “ – Por que não chamamos fulano? Ele está no Rio !” . Nem preciso dizer que meu coração disparou e que eu aceitei de imediato a idéia e o mesmo se deu com ele ao telefone, quando o Julinho o chamou.

São nesses encontros que a vida nos oferece tão raramente – e eu tive a sorte de ter quatro – que podemos constatar - como ao olhar o mar, o céu, a luz – a beleza da criação Divina. O amor ( ou o nome qualquer que possa se dar ) quando dá a alguém o privilégio do seu carimbo, ele carimba em você o sentido da eternidade, a trajetória da imortalidade.

Foi-nos dado a felicidade desse reencontro mas mesmo que não fosse, no meu coração já havia o seu nome com a marca da eternidade. Mas acho que Deus quis que essa marca ficasse mais ainda em evidência.

Quando ele entrou minhas pernas tremiam, e foram contidas pela força, pelo carinho do seu abraço. Acho que ficamos abraçados séculos, se não ficamos, eu podia ficar. E tudo que posso lhes dizer é que essa foi a noite mais bonita da minha vida, todos foram embora de porre, naturalmente – dessa vez ele também – e eu fiquei como a criança que recebe depois de uma longa espera , por longos natais, o seu presente tão sonhado.

{1/4/2008}!


II

A partir dessa noite , é claro que nos reaproximamos , fui à sua Pousada no sul da Bahia, ele veio aqui mais do que vinha de costume e num desses papos eu lhe disse que para mim nada tinha mudado e se tinha mudado tinha sido para melhor. E ele me olhou assustado e perguntou “- Para melhor? Não pode ser “

Mas foi . Isso foi 1999. Fui passar o reveillon com ele na Pousada ( passaria até em Marte ) e combinamos de em maio ir a Paris e depois passarmos uns dias na casa do Julinho, em Berlim.

Foi uma viagem encantada, maravilhosa. Como não éramos mais nenhuma mocinha de 24 anos e ele um rapazinho de 29, fizemos uma viagem no nosso ritmo. Mostrei-lhe a cidade que tanto amava-e amo – mas tudo bem lentamente. Jantamos uma noite na peniche da Muriel , uma francesa simpaticíssima que mora 6 meses em Paris, na peniche e 6 meses em Santo André, na Bahia, numa casa que fica numa colina onde se vê o mar e o cordão de coqueiros na beira da praia e cuja casa não tem portas nem janelas. É tudo literalmente aberto, como a cabecinha dela. Depois fomos para Berlim e ele descobriu que para chegar ao apartamento do namorado do Julinho tínhamos que subir 88 degraus e que então, para a saúde dos velhinhos – nós – devíamos nos programar para uma única saída onde faríamos tudo e depois voltaríamos para casa para escalar aquela montanha apenas uma vez por dia. Isso era a cara dele. Enfim, tudo foi maravilhoso, uma viagem de sonhos.

Na volta para o Rio, achei que ele iria logo de volta para a Bahia, preocupado com seus negócios , mas não. Foi ficando, ficando, chamávamos pessoas para jantar conosco, como o Marcus ( irmão dele , que é uma simpatia e a cara e a voz dele ) e sua namorada Ana, o Julinho, o Dudu, o Xande,a Lea, evidentemente, enfim, éramos como um casal de meia-idade que de vez em quando recebia seus amigos. Foi um período muito bom, de muita calma. Isso já era agosto de 2000 quando ele decidiu voltar com a promessa de que breve estaria de volta . Agora tínhamos certeza de que nada nesse mundo nos afastaria, como uma frase que ele um dia escreveu no seu e-mail de bom dia ( todos os dias, ao acordar, escrevia um e eu escrevia outro ), num dia que ele sabia que eu estava em plena crise de depressão: “ – Fica calma, Nenô. Jamais te abandonarei .”
Esse “ Jamais te abandonarei “ foi melhor que uma caixa de Efexor inteirinha. Fez eu milagrosamente melhorar e voltar a ter vontade de viver.

Até abril de 2001, quando ele me manda um mail dizendo que em fevereiro havia ido ao médico, que ao olhar sua radiografia do pulmão, aconselhou-o a fazer imediatamente uma tomografia, conselho que ele, naturalmente, não levou a sério. Mas não se sabe porque, em abril resolveu fazer. E ele não entendia o que dizia exatamente o laudo. Ai, meu Deus...Tão lindo, tão querido , mas tão, tão desligado. O laudo dizia com clareza. Nódulo de 4 cms no pulmão esquerdo, etc,etc...Gelei, fiquei tonta, não conseguia firmar os dedos para escrever. E ele do outro lado me perguntando: “ – Então , Nenô, o que você acha “ . Com 4 cms não dava para falar com meio-termos. Tinha que ser na lata para ele ver a seriedade do tratamento que necessitaria realizar. E foi o que fiz: “ – Pegue o primeiro avião que vem para o Rio que eu vou marcar o melhor médico para atender você. Você está com um câncer de 4 cms no pulmão “

Ele ficou quieto, talvez ainda pensando se isso significava muita coisa ou se poderia ser curado com uma rápida extirpação. Disse-lhe que viesse no dia seguinte e assim ele fez. E começamos juntos a nossa jornada de sofrimento sim, mas de inteira dignidade.

O primeiro médico – um medalhão – disse-lhe que ele deveria se tratar imediatamente e indicou um médico em quem confiava, do seu plano de saúde e disse-lhe que o procurasse imediatamente. Assim fizemos. E a orientação dele foi que ele fosse internado de pronto para fazer um exame para constatar se seria possível uma operação, caso contrário o tratamento teria de ser através da quimioterapia e posteriormente, se necessário, da radioterapia.

Lembro-me da fé e esperança com que ele se internou. Tinha absoluta certeza que bastaria operar e estaria tudo certo, quem sabe, até para fumar de novo. Fiquei com ele no hospital, assim como a Lea e o Marcus, seus irmãos. Na hora em que foi para a mesa de operação a Lea e o Marcus saíram e eu fiquei sozinha, esperando ele voltar, com o coração extremamente apertado, por saber que o tamanho do nodo era considerado muito grande e com mais apertado ainda pela decepção que ele poderia ter. Até então vinha muito animado com a possibilidade senão da cura, ao menos do controle.

Até que o telefone tocou e eu fui atender. Do outro lado da linha a voz do médico, comunicando que o processamento já tinha sido encerrado e não havia possibilidade de uma operação. Teria que ser tratado com quimioterapia. Com o fiapo de voz que me restava perguntei “ –E aí? “ Ao que o médico responde friamente que aí é uma melhora de um , no máximo dois anos e depois não há mais nada a fazer. E tinha que ser eu, justamente eu, a receber essa notícia. Nenhum dos parentes dele chegava e eu estava com medo dele chegar antes e me perguntar alguma coisa. Nunca nos mentimos antes e não seria essa a primeira vez. Mas felizmente a Lea chegou e logo depois ele desceu de maca. Quando ouviu o veredicto do médico não proferiu uma só palavra, fechou os olhos e se trancou num abatimento que eu nunca havia visto no meu amado guerreiro.

Mas passado uns dias, já começado o tratamento de quimioterapia, voltou à vida normal, ao humor normal, ao uísque normal. Estávamos sempre juntos. Às vezes, antes de ir para a quimioterapia, que era perto da minha casa, ia almoçar o mesmo macarrão de sempre comigo, depois ia tirar o seu costumeiro sono de após o almoço ( sempre foi assim ) e depois jogávamos um buraquinho até a hora da quimioterapia.

A princípio ele estava fìsicamente normal, até que foi começando a emagrecer e decidiu raspar a cabeça por inteiro porque o cabelo já começava a cair. O cabelo e o ânimo também.

Mas ainda não havia chegado perto da parte mais difícil: a radioterapia. 95 sessões de radioterapia foram transformando aquele homem forte em alguma coisa parecida com os prisioneiros de Auchwitz. Foi quando decidiu ir para um apart hotel em Copacabana, não queria ficar incomodando com sua doença na casa do Dudu e do Xande. Eu ia lá lavar a louça, fazer gelatina, fazer supermercado, ir ao banco por ele, almoçávamos juntos até que ele se queixava de um extremo cansaço o que já era o indicativo que era a minha hora de ir. Quem o conheceu há 6 meses atrás não diria que se tratava da mesma pessoa, com o corpo envergado de tanto cansaço, com os ossos de fora de tanta magreza, com a alma de fora como nunca permitira. Não tinha mais forças para reter nada.

Até que decidiu que dia 27 de novembro queria ir para Santo André a todo custo e como nada o fez mudar de idéia – nisso ele não havia mudado – a Lea decidiu-se a acompanhá-lo.

Deixei-os no aeroporto e ao vê-lo envergado, caminhando como um senhor de 90 anos, lembrei-me daquele homem lindo do carnaval de 74 e agradeci a Deus por me permitir estar ali com ele naquele momento. Eu e o Julinho, que por um motivo qualquer, teve que vir ao Rio e pode acompanhar comigo tudo que aconteceu com ele.

Não sei se chegou a uma semana , mas recebo um telefonema dele, com uma voz que era um fiapo que inacreditàvelmente me dizia : “ – Neno, estou com hepatite “ . Pensei que ia desmaiar. Sabia que tinha o vírus ( já tinha tido 2 ou 3 hepatites e continuava a beber normalmente ) mas dizia para o médico que o álcool ia negativar o vírus.

Não negativou. Deixou-o com aparência de prisioneiro de Auchwitz só que em tom amarelo, quase verde. Disse -, o que era uma era uma raridade – para o Ugo, seu sócio na Pousada , que estava com medo de vir para o Rio. O Hugo perguntou: “- Tem medo de morrer lá? “ Ele voltou seu rosto para o mar e nada mais respondeu.

Agora não era mais o apart de Copacabana mas o Hospital da Tijuca, aonde ia todos os dias e na maioria dos dias dormia lá.

Houve uma cena que para mim foi extremamente marcante. A dignidade , a elegância, o glamour, decididamente não estão ligados às roupas caríssimas que se veste , nem aos restaurantes exorbitantemente caros que se freqüenta. Um dia desses, nu ( passava o dia nu, pois qualquer coisa no corpo o incomodava ) pediu-me para ir ao banheiro. Acompanhei-o com todo amor, com todo cuidado para que não sofresse mais nenhuma lesão e sentei-o no vaso sanitário.

Passado poucos minutos, ele me chama, acompanhando a fala com um movimento de sua mão ( tinha mãos lindas, como as de David, de Michelangelo ) e diz: “ –Nenô, tudo resolvido “ . Aquela cena, aquela elegância gestual, aquele charme todo, naquele homem magro e verde como uma ervilha , me fez pensar que ele poderia estar perfeitamente sentado no “ Cipriani “ , com um elegantíssimo terno Armani, sapatos da mesma marca , pedindo a conta ao garçon: “ – Garçon, tudo resolvido “ .

Tive uma enorme vontade de levantá-lo dali e lhe dar o maior abraço do mundo , de dizer que o amava muito, do quanto estava orgulhosa com a dignidade com que estava levando a sua doença. Em nenhum segundo que fosse , o ouvimos reclamar de alguma coisa. Só gemia . Mas isso ele já fazia antes. Uma vez, em Paris, eu quase dormindo, ouvi-o gemer. Eu perguntei se ele estava passando mal. Ele disse. “ – Não. Gemer é bom . Geme, Nenô. Gemer é bom. ” Coisas que só ele podia inventar.

Um dia, estando me preparando para ir para o hospital dormir lá, recebo um telefonema da d.Iaiá, mãe dele, dizendo que eu não fosse porque ele havia sido transferido para o CTI, onde receberia um tratamento mais adequado. Felizmente o Julinho estava lá em casa, porque justamente na véspera tomamos o maior porre do mundo e passamos a noite falando dele, da importância inigualável que ele teve em nossas vidas. Fomos eu e o Julinho para o Hospital sabendo que a sua transferência não significava exatamente o objetivo de receber um tratamento mais adequado mas sim que o momento terrível começava a se aproximar.

Ficávamos todos no saguão do hospital , implorando para vê-lo , porque só podia ser 2 pessoas de casa vez. Fazíamos uma confusão tão grande que conseguíamos entrar ao menos 4.

Dia 21 de dezembro de 2001. Aniversário do Julinho. Resolvemos ir juntos comemorar com ele no hospital. E entramos os dois juntos de um só vez. Ao entrar olhei seu pé e tive um péssimo pressentimento. Todo seu corpo estava com uma coloração estranha, uma coloração que eu já conhecia de outras situações. Ele estava semi-lúcido mas sabia que éramos nós. E eu fiquei pensando na infinita bondade divina de depois de tudo que vivemos, depois de 13 anos de separação, depois de uma reaproximação que só faltávamos entrar com a alma uma dentro da outra, estávamos os três ali: Eu , ele e quem ele dizia ser nosso filho ( coisa que o Julinho detesta ) . Como eu previra na primeira vez que o vira. Nossos destinos unidos até o final e agora eu sei , depois que entrei para o Kardecismo , que nos almas estão unidas não só aqui como também no espaço dos espíritos imortais. Dei-lhe um beijo na testa , agradeci a Deus por ter tido esse homem em minha vida, não só pela riqueza de coisas que juntos vivemos como pela força e dignidade que ele teve em enfrentar essa doença sem fraquejar um só minuto .

E com uma certeza absoluta: Victor Penteado, me espere. Nós vamos nos encontrar no caminho da eternidade.






{1/4/2008}!

31.12.07


Oração de São Francisco de Assis



Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvida, que eu leve a fé;
Onde houver erro, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, Fazei que eu procure mais
Consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois, é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se vive para a vida eterna

{12/31/2007}!








E aproveitando que o assunto é cachorros, quero também apresentar a minha Tatie. Ela é irmã do Brutus. E como ambos são filhos de pai com filha, todos tem uma seqüela. Mas a dela é muito simples e não interfere em nada. Tem apenas uma traqueínha, ou seja, uma traquéia bem mais estreita que a normal, o que não a impede de ser bem levadinha. Mas sou muito grata a ela porque a peguei por acaso, nem sabia que meu Rotweiller estava doente. E ela acabou por nos fazer companhia até o fim e depois, não me deixar tão sozinha. E além do mais é fofa, fofa demais. Aqui está a minha Tatie:
{12/31/2007}!



{12/31/2007}!

30.12.07







Esse aí no filme é o Brutus, o que falei que é doentinho mas que nunca contaram pra ele.Come ( vorazmente ) de babador e depois vai lavar a boca. Só falta escovar os dentes. Mas temos que dar o mérito à mãe dele, que às vezes passa as noites acordadas quando ele está passando mal. Mas com isso lá se vão sete anos e para quem ia viver no máximo dois meses até que está no lucro não é? E ele é gozadíssimo,(seria mais se não latisse tanto ) , como tem sempre que estar aprontando uma quando não tem cachorro por perto , aponta por si mesmo. E vocês já viram a seriedade com que assiste oprograma do Faustão. Brutus, você é mesmo um cachorro muito engraçado...

{12/30/2007}!



{12/30/2007}!



{12/30/2007}!


Hoje, ao buscar no guarda-roupa um tênis para calçar, não o achava de jeito algum. E tinha de ser “ aquele “ tênis. Fiquei pensando que na hora que o comprei achei-o muito caro mas que hoje , pelo constante uso que faço dele é como se ele já tivesse se pago por si mesmo, ao longo desses anos. Estava com pressa e achei uma bobagem ficar perdendo tempo pensando nisso.

Depois, com mais calma, retomei o pensamento e vi que isso era verdade mesmo. Que o preço das coisas não está na hora que se compra , por pura empolgação, mas no dia-a-dia, no quanto nos faz companhia no cotidiano ou não.

Pensei naquela blusa caríssima que comprei há uns anos atrás para usar no reveillon . Usei no reveillon e nunca mais. Essa sim, foi uma blusa caríssima. Pouca ou nenhuma companhia me fez no curso desses anos.

E automàticamente me vi transportando esse tipo de pensamento para as pessoas que conheço. Seria a mesma coisa? Você conhece alguém, vai de imediato com a cara da pessoa, investe naquela relação , seja ela qual for ( amizade, afeto, contato , enfim...) algum tipo de expectativa e a expectativa não acontece. Para aquela pessoa você foi um encontro a mais numa noite a mais. Talvez quando a encontrar se lembre de dar um “oi” , por pura educação , sem ter a mínima idéia de onde a conheça.

A diferença é que na roupa apenas jogamos dinheiro fora e com as pessoas aplicamos o nosso preciosíssimo afeto e muitas vezes saímos machucados e poderíamos evitar se não fôssemos tão afoitos.

É claro que há pessoas que percebem isso, esse “assédio “ de amizade, afeto ou lá o que seja, e o máximo que você consegue, a não ser que seja realmente uma pessoal pra la´de interessante e envolvente é ser considerado um chato, um inconveniente, daqueles que “ por coincidência “ descobrem sempre onde você está e gruda que nem carrapato. Nada pode ser mais enfastioso para a mais bem intencionada e paciente das criaturas.

Portanto, meu chato de plantão, seja o tênis velho que custou caríssimo e se paga por si mesmo. Fica na sua que se você realmente valer à pena, você será reconhecido, será chamado para as situações mais inusitadas , acompanhará roupas das mais chics – pra dar um ar blasé – assim como a boa e velha companheira calça jeans, de quem você tanto debochava.

E por que é assim?

É assim porque a vida é assim mesmo. Quer uma mais nobre explicação para isso?

Se quer, é porque realmente não terá jeito.

{12/30/2007}!

27.12.07


{12/27/2007}!


Era como se estivesse toda em carne viva. As coisas que vivia iam-lhe parar na boca do estômago como um soco seco, cujo eco se espalhava por toda a corrente sangüínea, até chegar ao coração.

Era estranho como seu estômago se tornara o centro receptor do mundo à sua volta. Nele se instalara a dor pela mãe que morrera, a solidão que descobrira, recente percepção da sua falta de habilidade de lidar com a dor, com a morte, com o sangue. O sangue que transbordara do corpo de sua mãe e a deixara sem vida e agora afogava suas vísceras, tingindo-as de um tom absurdamente vermelho.

Tomava remédios para o estômago, bebia leite.

Ardia o sol na janela quando a gata pulou em sua barriga e num gesto de carinho aninhou-se toda. Ronronava feliz sobre o seu estômago dolorido, indiferente à sua dor.

Um novo soco percorreu-lhe o corpo. Por fim adormeceu. Sonhou com cicatrizeLera no jornal que um rico empresário adotara 34 crianças de rua e sentiu em seu estômago a presença de 68 olhos, 34 bocas, 34 narizes e quis pedir colo àquelas 68 mãozinhas que Ihe socavam o estômago ingenuamente.

Olhou-se no espelho e se viu como uma enorme gelatina de morango que em contato com o ar estava prestes a se desfazer.

Descobriu naquele instante que odiava gelatina.

Gostaria de sentir algum desejo incontrolável de comer algo ao menos algum desejo incontrolável. Mas estava com um estúpido medo dos desejos. Nada mais podia ser incontrolável. Seu estômago necessitava de um rigoroso controle de tudo. Da quantidade de gordura que ingeria, da quantidade de álcool que dali pra frente beberia e principalmente da qualidade de emoções que conseguiria suportar. Qualquer aborrecimento parecia-lhe um nocaute. Nunca saberia se iria suportar a próxima vez.

Lembrou que em outras épocas gostara tanto de beber Campari e isso provocou-lhe um calafrio. Como beber agora aquele líquido vermelho a misturar-se com seu sangue, a provocar-lhe o que Ihe parecia uma hemorragia definitiva? Percorreu com os olhos o resto do quarto. Todas as cores haviam desaparecido. O relógio vermelho, a blusa vermelha, o estômago vermelho. O mundo estava todo em preto e branco. Como já perdera a hora, resolveu voltar a dormir. E sonhou com uma gigantesca prancha de aquarela onde não só existia o vermelho como a possibilidade de todas as cor
{12/27/2007}!

24.12.07




OBS:O Rotweiller lindo que aparece com eles terá uma história só para ele,como agradecimento pelo seu amor, generosidade e lealdade



{12/24/2007}!

23.12.07

FAMILIA POPAI


Tudo começou com ele. Uma bolinha amarela que mais parecia um novelo de la e que recebera o nome de Popai. Aonde ia chamava atençao porque alem de lindo era extremamente simpatico e comunicativo. Ate que o novelo de la foi crescendo, crescendo e se parecendo mais com um carneirinho de cabelos louros, lisos, escorridos , tão escorridos que chegavam a lhe tapar os olhos. Nao era a toa que ha muitos anos atras sua raça – Lhasa Apso – era considerada a raça de guarda da elite do Tibet.

Mas como nao estamos no Tibet, o Rio de Janeiro entende muito pouco de elites e foi com uma meio-viralatinha – mas com origem de Lhasa Apso – que ele realizou seu primeiro casamento.

Sua mae , extremamente dedicada, pedira a dona da chachorrinha apenas um filhote da ninhada para dar de presente a um amigo. Mas o fato e que quando a ninhada nasceu, poucos sobreviveram e a dona da cachorrinha nao quis dar a unica que sobrava, pois disse que ficaria com ela.

Uns tres meses depois, a mesma moça telefona e diz que nao quer mais a cachorrinha, que da muito trabalho, e muito levada , etc etc etc e se ela nao poderia arranjar um dono para ela. Na mesma hora a dona do Popai providenciou para que buscassem a cadelinha e – abismada com o estado lastimavel em que se encontrava – resolveu cuidar dela ate que ficasse bem forte e bonita, para que pudesse arranjar-lhe um dono. Mas deu-lhe o nome de Olivia. E como na historinha que conhecemos Popai e Olivia – que virou uma linda cadelinha com pelos escuros – se apaixonaram e trataram de providenciar – para desespero de sua dona – a sua propria familia.

E foi assim que nasceram seis lindos cachorrinhos, dois que puxaram ao pai e o resto que puxou a mae, pretinhos como uma noite sem luar.

Todos pareciam extremamente saudaveis e ja tinham seus donos prometidos quando sua avo – mae do Popai – percebeu que dois deles mamavam e soltavam leite pelo nariz. Ligou imediatamente para a veterinaria – excelente , por sinal – que quis logo examina-los.




Desse exame concluiu que a menorzinha tinha pouquissimas chances de vida ( e realmente faleceu uns 2 dias depois ) e o outro sofria de uma doença chamada megaesofago, ou seja, um esofago enorme, que se comer substancia solida nao digere, cola no pulmao , gera uma pneumonia e o caozinho morre. Raros sao os que conseguem ultrapassar os 2 meses de idade. E claro que a vovo decidiu ficar com ele e deu o nome de Brutus. Eta nomezinho mais acertado !

Porque so ha um problema. Esqueceram de contar para o monstrinho que ele e doentinho , sendo portanto ele e o mais peralta de todos. E agora que esta prestes a fazer sete anos, so come de babador, comida batida no liquidificador e dada pela avo, pacientemente, de colher, que depois o leva para lavar a boca e ele voltar a aprontar suas travessuras pois e o mais inteligente e irritante da casa pois nao para um segundo de latir.

E , já que ficou o irmaozinho, fiquei eu com a irmazinha que se chama Tatie, que quando morava so comigo, era um anjinho de cadela. Nao latia quando eu saia, nao latia com a campainha, enfim, um graça, Hoje, convivendo com essa atacada familia, pegou-lhe todos os maus habitos ( porque a avo tem pena e nao os educa ) e ha horas que se embolam os quatro e eu pareço que vou enlouquecer. O passatempo preferido deles é ver no Faustao os cachorros que aparecem por la. Eles latem de la e eles de ca. Uma delicia.

Sao lindos? Sao. Sao fofos? Fofíssimos. Sao a alegria da casa? Se pudermos chamar de alegria a algazarra que fazem quando a mae-vovo chega em casa ( quando ela nao esta sao uns anjos ) e que so param na hora de dormir, porque estao exaustos , sao, sao uma festa de tanta alegria.

Ai em cima vai a fotografia da familia Popai quando nasceram os filhotinhos que ainda nao latiam como , infelizmente, latem hoje. “ Filhos, filhos, melhor nao te-los? Mas se nao os temos...” Vinicius tinha razao. Mas que sao lindos demais isso sao...

E assim será para todos os sempres...

{12/23/2007}!



{12/23/2007}!

17.12.07



- "A tout a l'heure", disse ela para a morte às 15,30 da tarde.

- "A ce soir".

Pela manhã, visitara a filha no trabalho e, prestes a sair, ouvira o chamado: - "Mãe ! Esqueceu seus documentos!..."

Voltou-se lentamente como se aquele corpo, a poucas horas de morrer, já lhe fosse um fardo. Aqueles documentos que a identificavam "Fulana de tal" dali a pouco perderiam o significado. Assim mesmo guardou-os na bolsa para facilitar as coisas na hora do acidente. Afinal, precisariam saber que morrera.

De posse de sua identidade, virou-se e seguiu o homem; o homem que seguira, arduamente, durante todos esses anos.

Era a última vez que sairiam juntos. E, como de todas as outras, ele esbravejava. Tivera vontade de dizer-lhe para poupar-se . Choraria tanto dentro de algumas horas que talvez lhe fosse econômico (disso ele entendia) aplicar esses minutos em alguns momentos de prazer.

Poderiam talvez se dar as mãos e sentar num banco qualquer de praça, como o da foto amarelada do dia do noivado... E repetir juras de amor, nunca cumpridas. Não o amor, mas as juras... juras... Jura?

Amara esse homem, isso é certo. A quem pouco amara fora a si mesma. Amara o homem, a filha, os filhos da filha que não vieram. E sobretudo, nos últimos anos, aprendera a amar esse Deus que já lhe acenava com o reino prometido.

Colocou a mesa para o almoço.

Nos pratos ingleses que foram da mãe daquele homem que comia sonoramente à sua frente, engoliu, enfastiada, a última refeição.

Faltavam dez minutos para sair.

- "A tout a l'heure", disse ela para a morte às 16,50 .

- "A tout de suite".

Desceu o elevador com a amiga.

E juntas, de mãos dadas, proferiram a última oração.

O carro, como sempre, demorara a esquentar. Teria pressa?

Subiu a rampa raspando as bordas da parede. Arranhou o carro. Ruminou algo ranheta, seguiu seu rumo.

Há tres minutos deixara a amiga na porta de casa.

Arrumou, mais uma vez, o retrovisor interno. Terrível o engarrafamento daquele fim de tarde. O caminhão forçava a passagem com o ensurdecedor barulho do acelerador. A urgência devorara as fibras dos pneus.

A Fábrica Kibon lhe deu vontade de tomar sorvete. Estranho o calafrio numa tarde de setembro...

Enorme o caminhão, aquele, o do outro lado. No sentido contrário do seu rumo... No sentido contrário de sua vida.

No enorme ruído, sentiu o baque.

Adieu, madame.

A quelquer jour.



SET/92

{12/17/2007}!

15.12.07

Uma reflexão não de final de ano mas de final de ciclo.

Amigos tão queridos,

Não sabia ainda ao certo a quem enviaria essa mensagem. Se às minhas ex-namoradas, se aos meus amigos ou se a ambos. Decidi-me por ambos. Isso porque, pelo que ainda me lembro do meu tempo de Astrologia, tenho um lindo Júpiter em conjunção com a Vênus na sétima casa ( casa dos relacionamentos ) , no signo de Aquário ( signo dos amigos ) , cujo dispositor, Urano é na 11a. casa, sua casa de origem natal, sendo Urano o planeta que rege a amizade e a casa 11, também a casa dos amigos. Talvez por isso a maioria de minhas namoradas são minhas amigas há tantos anos e isso explicaria também a gama maravilhosa de amigos que fiz em minha trajetória de vida.

Essa área de casa 7 é realmente um presente de Deus. O mesmo Deus que já me deu tanto, muito mais do que eu merecia e que hoje aprendi - com toda a intensidade do meu coração - a primeira das duas únicas coisas que ele nos pede: AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS. E podemos chegar a isso de várias maneiras: Constatando todas as manhãs a beleza da sua criação, os desenhos das nuvens no céu, o movimento das ondas no mar, a linda dança em V das andorinhas, os musguinhos que cobrem as pedras e que podemos enxergar na maré baixa. Só de olhar a maravilha da criação Divina , meu coração se acelera e eu me sinto muito, muito feliz. Isso sem falar na infinidade de milagres que fez na minha vida, inclusíve salvá-la de mim mesma, por várias e várias vezes. A última tem uma semana, quando quase morri de uma infecção urinária da qual nem desconfiava. Fui ao pronto-cor tomar uma injeção para dor lombar e fui internada imediatamente. Foi uma coisa muito estranha.

Quanto à segunda lei , acho que não estou preparada ainda, embora esteja atenta: AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Mas isso já é uma outra história.

Demorei muito a chegar ao sentimento do amor Divino porque precisei antes entender uma coisa muito importante: Isso é um processo único, individual e intransferível. E eu, com esse Júpiter agarradinho na minha Vênus, me prendia ao amor romântico, onde tudo , para fazer algum sentido, tinha forçosamente que ser vivido a dois. E passei a metade da vida acreditando nisso, buscando isso e consequentemente deixando de ver uma série de coisas à minha volta, coisas mais grandiosas que o amor romântico ( que durante um tempo também é importante ser vivido ) , as maravilhas que podemos sentir sentindo pulsar verdadeiramente em nós o verdadeiro amor a Deus.

Perdoem-me se me pareço com aqueles horrendos pastores da Igreja de minha mãe, que eu detestava mas que hoje sou levada pelo menos a respeitar. Todos tem direito ao Livre-Arbítrio e no final de tudo, burlando leis estranhas e dogmas mais estranhos ainda, na verdade tudo nos leva ao mesmo Deus, se estivermos todos na trilha do bem.

Nessa trajetória desse ano tão difícil mas tão enriquecedor do ponto de vista de mudança de padrões tão arcaicamente estabelecidos, de conscientização de que para que eu conseguisse mexer na profundidade desses padrões era preciso derrubar o mais forte deles ( principalmente para um Leão Ascendente ) para poder enxergar aquela que iria ser minha aliada nas mudanças que planejava estabelecer a partir da percepção de novos horizontes.

O primeiro obstáculo a ser abatido era o orgulho. E mais ainda. O orgulho de ter orgulho. E para isso eu tinha que admitir que tinha orgulho e que o usava cotidianamente nas minhas ações. E ao me perceber admitindo isso, já via o poderoso-controlador-de-mim ir perdendo a sua força e dando lugar ao surgimento daquela que preciso como parceira todos os dias da minha vida, para chegar às verdadeiras mudanças de padrões que necessito para me tornar um ser melhor, e cumprir , nem que seja um pouquinho , uma parte do objetivo de nossas vidas: o desenvolvimento e a evolução como espírito imortais que cada um de nós é. E foi assim que me apresentaram à tal de humildade, que - para uma leonina ascendente - era difícil até mesmo de olhar.

E aos poucos fui me exercitando. E até hoje, um dia acerto, outros 10 não. O importante é não desistir de , humildemente vasculhar a malha dos meus valores não com postura julgadora ou crítica mas com uma tendência reformadora . Acho que já consegui algum progresso, mas ainda falta muito, muito para eu melhorar realmente. Mas já estou feliz por ter descoberto como se inicia o movimento e a compreenção do ORAI e VIGIAI. Quando descobrirmos um padrão a ser trabalhado, devemos colocar um alarme em cima dele para quando ele - certamente - tender a se repetir, voltarmos e tentarmos uma reparação. Se imaginarmos o quanto é difícil mudarmos padrões estabelecidos numa só vida ( para quem não comunga da teoria da Reencarnação, própria do Kardecismo ) imagine para nós, kardecistas, mudarmos padrões que vieram se firmando ao longo de tantas encarnações.

O mais interessante de tudo isso , é que me lembro muito bem um dia , conversando com a Léa - irmã do Victor - na praia , durante um porre homérico que tomei no falecido Caneco,( o álcool foi um dos padrões que mudei com uma facilidade inacreditável. E sòzinha. Assim como o cigarro, o jogo, o prazer do jogo da sedução . Tudo isso hoje me parece tão longe de mim como se eu os tivesse vivido realmente em outra encarnação ) me vejo dizendo tudo isso que digo agora sem ter a menor idéia da Doutrina Kardecista, a não ser por leves lembranças dos passes que me dava o meu avô. Eu já dizia - naquela época - que não importava religião alguma. Que o que importava mesmo é a consciência que Deus mora dentro de nós, em nossos corações, e a forma como vamos viver o nosso cotidiano é que evidenciará se dignificamos ou não esse Deus que mora no nosso interior.

E também quando pego mapas que fiz há anos e anos atrás , quando trabalhava com astrologia ( entre 95 e 2002, com fases mais intensivas, quando a depressão deixava ) releio coisas que hoje escuto no Rita e faz meu coração disparar porque me deparo ouvindo coisas em que já acreditava sem que nunca tivesse ouvido, o que me parece pelo menos me colocar - mesmo sem orientação pedagógica - na mesma linha de vibração, na mesma egrégora desses entes espirituais tão generosos e tão queridos. E isso me faz imensamente feliz.

Como todos devem saber, tenho Depressão ( tive crises muito, muito graves ) desde 1993 e depois de pela primeira vez ter tentado acabar com aquela vida de tanto sofrimento, em 2003, acabei sendo levada ao Frei Luiz , de onde saí pràticamente curada ( nunca mais tive uma crise verdadeiramente ) dois anos depois e vim parar no Rita de Cássia. Se para ir ao Frei Luiz levava ao todo um período de 5, 6 horas de ida e volta, a " Casa Espírita Rita de Cássia e Maria de Nazaré " era simplesmente na esquina da minha rua, embora estivessem construindo nossa própria sede que agora já funciona na Almirante Guilhem 265. Se no Frei Luiz recebi a graça da cura da depressão , ( embora a depressão tenha se transformado numa dor-de-cabeça diária, terrível, que remédio nenhum fazia efeito . Só o Mineral Ice minorava um pouco a dor , pela sensação de friagem ) , no Rita comecei a trilhar outro caminho.

No Rita - que é bàsicamente um centro de estudos da Doutrina de Kardec - comecei o caminho necessário do estudo dos fundamentos da Doutrina, através do curso de estudos do " Livro dos espíritos " , e comecei a sentir dentro de mim uma necessidade de mudança tão emocionante quanto pessoal e intransferível. A Denise, parceira de todas as horas , começou o Rita comigo e depois de alguns meses não foi mais. Hoje, vai fazer tres anos que frequento o Rita e cada dia que vou mais vontade tenho de ficar, de reter aquela tranquilidade, aquela paz que mesmo mudando de casa permanece o mesmo. Hoje vou todos os dias e ainda lamento de não abrir aos domingos. E foi no Rita que foi se formando realmente em mim a necessidade efetiva de uma reformulação moral e espiritual. De fazer daquelas palavras lindas que ouvia todos os dias nas palestras não só parte de uma teoria mas sim uma nova atitude diante do cotidiano, das provas pelas quais passamos todos os dias. Talvez esse seja o início da possibilidade de AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Mas continuo dizendo que preciso estudar, ouvir, ler muito mais para passar para esse novo estágio.

E se antes eu reclamava ( porque o sofrimento da depressão realmente só sabe quem tem ) da frequência das minhas crises que me isolavam da vida, que me tornavam quase um objeto, agora , que frequento também o passe de cura às quartas-feiras no Rita e a mudança de psiquiatra que resultou na introdução de remédios mais eficientes, a dor -de- cabeça também melhorou ou eu melhorei um pouco a forma de lidar com as minhas provas e expiações.

Hoje tenho um lema que sigo à risca: " Senhor, que seja feita a VOSSA vontade e não a NOSSA " . Porque hoje eu sei que esses 15 anos de dor, de doenças initerruptas, na verdade são oportunidades contundentes de me permitir chegar a esses lugares que mudaram inteiramente a minha visão da vida e promoveram em mim um novo tipo de felicidade. Porque o outro tipo de felicidade já não funcionava mais. Mas eu tinha o livre-arbítrio. Podia aproveitar essa oportunidade dolorosa e tranformá-la em aprendizagem ou passar o resto da vida reclamando.

É difícil? É. Ao lermos o "Evangelho segundo o Espiritismo" , de Alan Kardec, você se acha um lixo e acha que não vai conseguir melhorar nunca. Nunca não. Pode não conseguir melhorar tudo nessa encarnação mas já terá evoluído o suficiente para vir na próxima com uma consciência mais evoluída ( Porque no kardecismo não existe involução. Estagnação sim. Mas involução não ) e assim sucessivamente.

Vocês devem estar se perguntando por que eu resolvi escrever isso para vocês que foram as pessoas mais importantes da minha vida ( outros já o lerão do nível espiritual, porque já se foram e estão percorrendo seu caminho de luz e contínua evolução ) . Porque foi graças a vocês , à troca afetiva e intelectual que fizemos ao longo das nossas histórias pessoais, que eu fui construindo uma determinada identidade, absorvendo valores, mesmo que hoje eles devam ser mudados, um dia foram muito importantes para mim. Como cada um de vocês sempre será. E esse sempre é sempre mesmo. Jung já dizia: " Os convidados não são por acaso ". Já nos conhecemos, amigos, há muitas encarnações e o hoje é apenas um reencontro.

Espero que não tenham achado muito chato ler tudo isso mas vocês foram os pilares da minha vida , a minha antiga fotografia. E eu fiquei com uma vontade enorme que vocês conhecessem a nova.

Amo a cada um de vocês por toda a eternidade.






{12/15/2007}!



{12/15/2007}!


Logo da primeira vez que tive contato com uma foto de Meimei, ainda no Frei Luiz, senti uma intimidade tão grande como se fôssemos irmãs de longa data e ao mesmo tempo uma grande emoção. Depois soube ser esta grande irmã ,protetora das crianças, tendo morrido cedo, por volta dos vinte e poucos anos e no entanto seu nome ficou. No Frei Luiz , a sala dos portadores de síndrome de down se chama sala Meimei e no Centro de Estudos Rita de Cássia , a casa que me acolheu com tanto carinho e embora tenha sua filial no Leblon, faz questão de frisar que sua sede é na Rocinha, onde ocupa duas ares de 1.000 m2, uma para estudos , outra para esportes e a sala destinada a trabalhos manuais chama-se sala Meimei e assim mantem as crianças sempre ocupadas com atividades do bem, não sobrando tempo para os perigos que os ronda. Mas para o Rita de Cássia reservaremos um capítulo à parte, explicando suas raízes e infinitos desdobramentos. .

"Se sentirmos Deus como Nosso Pai, reconheceremos que os nossos irmãos se encontram em toda parte e estaremos dispostos a ajudá-los, a fim de sermos ajudados, mais cedo ou mais tarde.A vida só será realmente bela e gloriosa na Terra, quando pudermos aceitar por nossa grande família a
Humanidade inteira." Meimei

{12/15/2007}!

20.11.07

HERALDO CARDIA OU UM OLHAR PARA OS ANOS SETENTA



Dias se passaram depois do filme e ela ainda sentia no fundo do seu ouvido as canções de Piaf, ainda rolavam no caleidoscópio as imagens , a lembrança de uma cidade que amava com paixão e da qual vira agora também suas vísceras e as vísceras permanentemente expostas, sem medo e sem pudor daquela mulher cujas últimas palavras foram uma resposta à acompanhante que mal conhecia e que lhe perguntara: " Você tem medo da morte ? " e a resposta veio como uma extrema-unção: " Menos que da solidão ".



Desde aquele final de tarde, a dor de cabeça não lhe deu trégua mas ela também não deu trégua para a dor de cabeça, que agora lhe parecia uma coceira perto de tanta dor com que vira aquela mulher se debater durante a sua vida inteira. Era como se a dor , naquela mulher, formasse sempre a letra Ele, maiúscula. Quanto mais a mulher descia ao fundo do poço, mais lutava como uma leoa abatida por balas de fuzil e ainda conseguia dar um ou dois passos para a frente, dependendo da caligrafia. Depois caía. E o Ele maiúsculo se tornava por um tempo uma linha . Apenas uma linha solta no espaço, que não levava a lugar nenhum. Até que, como num desenho animado, a ponta inicial da linha fosse novamente puxada um pouco para cima a fim de reconstituir ao menos o Ele maiúsculo, com algo de vertical.



Essa última pergunta que foi feita para que a mulher recebesse a extrema-unção, grudou na testa de Lucia como se para perguntar a quem a visse , a mesma coisa, para que também soubessem a importância dessa pergunta e mais ainda da necessidade de uma resposta. Quanto a ela, parecia que fora gastando seu medo das duas coisas durante toda a sua vida, e com isso fosse deixando atrás de si mesma pequenos gomos de milho para ajudar a quem se interessasse pela sua resposta ou pelo caminho . Não tinha mais medo de nenhuma das duas. Muito pelo contrário. As tres tornaram-se tão íntimas que era difícil definir quem era uma , quem era outra. Pareciam o triângulo das bermudas engolindo a tudo a todos que se aproximassem dela, não de forma intencional, mas como se aquilo fosse uma sina, uma maldição.



Ainda tomada por esse clima que lhe parecia ora de desconforto , ora de profunda intimidade com tudo que na verdade era dela e parecia ter saído do túmulo depois do filme , recebe de um velho e querido amigo, que há mais de 20 anos mora na Austrália, um mail com o seguinte encaminhamento: " Eu geralmente não repasso mas esse do Garcia Marques eh muito lindo. beijos " Era como se de lá, do outro lado do oceano , ele desvirasse para ela o avesso de Paris , fazendo com que visse de novo com olhos de glamour a cidade que tanto amava com um texto de Garcia Marques , porque afinal de contas Heraldo nunca foi tão adocicado assim. Gostava de vísceras. Há muitos anos atrás, ele com 18 e ela com 24 anos , passavam horas bebendo , fumando, discorrendo sobre a loucura. Ele sempre fora de uma inteligência e cultura extremamente brilhantes, ainda mais levando em conta a sua idade. E adorava brincar de desarmar argumentos, só pelo prazer de brincar com as palavras. E assim ficavam , horas a fio, brincando com a loucura como se estivessem jogando bola, toma-lá-dá-cá. Sem saberem ainda o quanto seria, anos depois, perigoso o resultado dessa instigante brincadeira.



Tinha ele um riso lindo de criança-traquina que formava duas enormes covinhas no seu rosto e quando ria só se via suas covinhas, pois seus olhos se fechavam para que ele pudesse rir por dentro mais espaçosamente, tão espaçosamente quanto as suas gargalhadas. E riam, ainda impunemente , da loucura. Era meio moda isso de falar sobre a loucura no ano de 1976 - anos de ferro - como na tentativa de , falando dela , não permitir que ela, olhando para o que se passava polìticamente no seu tempo os enlouquecesse realmente pela impotência . E de vez. Só não sabiam que os grãozinhos de milho eram já - naquele tempo - as sementes da loucura que crescia lenta e silenciosamente e que só iriam perceber quando - aparentemente - os separassem a metade do mundo, a metade das águas de todo o oceano. Mas só aparentemente porque nunca mais - mesmo tão longe - nada os separaria.







{11/20/2007}!



{11/20/2007}!


PIAF, O FILME

Todos aplaudem de pé. Aplaudem de pé, numa sessão da tarde de uma quarta-feira. Ela queria fazer o mesmo. Mas não conseguia. Parecia pregada naquela cadeira no escuro, onde tudo que vira girava como um caleidoscópio não só na sua cabeça, como nos seus nervos, nos seus dentes trincados, girando, girando e girando fazendo um carrossel do seu coração amassado.Quando conseguiu , levantou e foi descendo lentamente os dois lances de escadas,preparando-se para os choques iniciais. Primeiro se deparar com a luz ( ainda média) que vinha do primeiro andar e um certo burburinho que faziam o caleidoscópio girar,girar, girar. Agarra-se ao corrimão sem saber ao certo se para segurar a tonteira ou se para não mais sair dali. Quem sabe assistir até a última sessão para que , ou se escoasse , ou se definissem todas aquelas estranhíssimas sensações. Não fica. Desce o último lance de escadas que a leva a uma cena como de um filme emendado : um pedaço rasgado e colorido de Noviça Rebelde colado às pressas com o que lhe parecera em preto e branco ( mas não era ) que acabara de ver.Aquelas pessoas rindo sabe-se lá do que, olhando-nos como se para adivinhar e já concluir tudo que prestes estavam a ver. Aí pareceu se surpreender como podem ainda ser ingênuas e tolas como crianças , pessoas já na faixa dos seus 50/60 anos, frente ao desconhecido, sem supor sequer que era aquela a última vez que teriam aquele riso gratuito,aquela leveza toda, ao menos nas próximas 24 horas. E como seriam diferentes nas próximas 24 horas do resto de suas vidas.Ao sair à rua, o caleidoscópio passou a girar como um pião de menino-danado. Sem controle, saiu a girar a esmo até que esbarrou num carro e se encostou. Onde era mesmo que estava? Sem saber ao certo o que fazer, agradecendo a Deus pelo corpo ter memória - levantou o braço direito e um carro amarelo parou àsua frente. Entrou , sentou e nada disse. Até que uma voz lhe perguntou: " - Para onde vamos , senhora? " Olhou para aquela figura estranha e deu o nome de uma rua agradecendo mais uma vez o automatismo de algumas coisas que conseguem sair - como pipoca pulando na panela quente - de dentro da nossa cabeça no momento que mais precisamos.Quando não sabemos mais ao certo quem somos e aonde ir.

{11/20/2007}!



{11/20/2007}!

18.11.07

PORQUE É BOM TER AMIGOS DE MUITO TEMPO:

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar juntos quando ligávamos para ele para contar a farra da noitada anterior, com a ressaca ainda a nos cair da boca como um cabo de guarda-chuva e ríamos às gargalhadas dos micos que pagamos.

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar juntos o dia em que precisamos do ombro dele para chorar pelo grande amor perdido , babando lágrimas e palavras que inundavam sua camisa novinha , sua alma, e ele ficava ali, horas a fio, sem reclamar , nos guardando em seu abraço.

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar juntos o dia em que ele perdeu um parente querido mas achou ali, firme e fiel, a sua mão para amparar a dele, o seu ombro para chorar, a sua presença para preecher um pouco o imenso vazio.

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar juntos aquela viagem gozadíssima que fizeram juntos e você pediu que ele levasse um isopor ( supõe-se que com gelo, naturalmente ) e quando você pediu para que ele lhe passasse um gelo para colocar no uísque ele tira um alicate de unha e um chinelo de dentro do isopor, porque você pedira o isopor mas do gelo ninguém falou nada, ora pois.

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar o dia em que sua namorada pega você na cama com outra e vocês dois ¿ de tão amigos que eram ¿ moravam no mesmo prédio e ele pode descer quase nu, às 4 horas da manhã, antes que a sua namorada acabasse de quebrar na sua cabeça todos os objetos que encontrava dentro de casa.

É bom ter amigos de muito tempo porque podemos lembrar as inúmeras viagens que fizeram juntos, sozinhos ou com outras pessoas e que as outras pessoas podiam até aborrecer você ( porque viajar junto é o ó...) mas o seu amigo nunca. Porque com ele tudo era sempre novo ¿ mesmo que já tivessem feito 20 vezes a mesma coisa ¿ engraçado, divertido.

É bom termos amigos de muito tempo porque podemos, numa noite de insônia como essa, pensar que amanhã de manhã vamos nos falar porque preciso saber se ele já melhorou da pneumonia, ela da lordose, o outro da anemia e dizer que estou melhorando aos poucos da coluna e nunca mais tive crise de depressão.

E lembrar também , se aquele amigo de muito tempo não mora mais nesse plano aqui, que onde você estiver ele vai estar contigo e um dia se encontrarão de novo para nunca mais se separar, porque ninguém nem nada no mundo separa amigos de muito tempo.

Por tudo isso é bom ter amigos de muito tempo. É bom ter amigos. É bom.

RJ, 26.03.2004
{11/18/2007}!


PARA UMA ETERNA MENINA COM UMA FLOR ( para Denise )

Conhecera-a quando ela tinha 30 anos e parecia um pirilampo, saltitando suas luzinhas coloridas por todos os lados, como uma criança que quer muito parecer seria, adulta , madura, mas era denunciada pelos olhinhos faiscantes que buscavam ora uma interessante novidade e aventura , ora se embrenhava pelas nebulosas dos sonhos, pelo mundo da fantasia.

Mas sempre fora pródiga em generosidade, em fazer o outro feliz e , fundamentalmente, permitir que o outro fosse exatamente do jeitinho que ele era.

Se lhe disséssemos assim: - Estou pensando que poderíamos escalar o Everest. Ela prontamente responderia: - Oba ! Quando e que a gente começa?

Dez anos se passaram , viveu-se momentos extremamente felizes e momentos de extrema tristeza, como cabe a duas pessoas que sentem a vida.

E hoje, olhando para essa menina que a idade já faz mulher eu percebo o quanto ela ultrapassou todas as expectativas.

Hoje, dentro de uma realidade menos leve, menos amena, eu vejo surgir uma linda pessoa adulta, plenamente consciente das suas responsabilidades , que executa essas responsabilidades com uma enorme generosidade, amor, compaixão, sem no entanto perder o seu maior diamante: a sua eterna alegria.

E e a essa eterna menina que eu dedico o meu amor eterno, a minha enorme admiração e a quem devo , de todas as formas, a minha vida.

Porque e da sua alegria, da forca oculta que há por detrás dela que ela alimenta os meus dias e me mostra que a vida pode ser um lugar aprazível, se pleno de amor, compaixão, cumplicidade e generosidade.

Para essa eterna menina, com uma flor.
{11/18/2007}!


Sexta-feira, Dezembro 05, 2003


PARA ZOÉ



Desde a primeira vez que a vira ¿ e isso já faz uns 8 ou 9 anos ¿ achara que ela flutuava. Que seus pés só tocavam levemente o chão para tornar mais graciosa ainda aquela imagem do aguaceiro, associada ao signo de Aquário.

Seus cabelos leves e esvoaçantes lembravam ao mesmo tempo ¿ As três graças ¿ do quadro ¿ A primavera ¿ , de Botticelli e o anjo da ¿ A anunciação ¿.

O fato é que parecia flutuar no ar, acima das vicissitudes humanas , derramando sobre o grupo que a olhava fascinado , o seu olhar iluminado e as águas regeneradoras do seu aguaceiro.

Mas nem todo esse encantamento poderia me fazer supor que seria essa vestal um dos fortes pilares que me ligariam ¿ tempos depois , em que a idade e outros fatores que independeriam de mim já não me deixavam me encantar tanto com a vida ¿ ao frágil elo que eu passaria a ter com essa mesma vida.

E ela hoje, com seus mesmos cabelos dos quadros de Botticelli e seu jeito de flutuar eventualmente tocando o chão , me faz lembrar dos versos de Machado de Assis: ¿ Talvez um dia meu amor se extinga / Como fogo de Vesta mal cuidado / Que sem zelo da Vestal não vinga ¿ .

E ela fica ali, atenta, com olhos que sabe que nunca tive e quando meu amor pela vida começa a escoar pelo ralo, ela joga docemente sobre mim seu aguaceiro , pega meu coração nas mãos e o acalenta, e à criança que eu fui dá afeto e abrigo.

Que Deus, Zeus, Buda e todos os Avatares derramem também sobre ela os seus aguaceiros para que essa Vestal possa distribuir não só a mim mas a todos a sua luz e a semente da vida.
{11/18/2007}!


Quinta-feira, Novembro 15, 2007


{11/18/2007}!



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{11/18/2007}!


Quinta-feira, Dezembro 04, 2003


Até os oito anos de idade era uma criança triste e solitária.

Cansara-se de pedir à mãe que lhe desse um irmãozinho e todas as noites, nas suas orações diárias, pedia que no dia seguinte o seu boneco Fred tenha virado gente.

E foi assim que foi acumulando a cada manhã um acervo de frustrações que a faziam uma menina ainda mais triste.

Mas toda essa tristeza era esquecida quando ia dormir na casa do seu avô. Aí brincavam de estátua, aprendia ¿ precocemente ¿ a jogar xadrez e ¿ a melhor hora de todas ¿ escutava na hora de dormir as infinitas histórias que seu avô lhe contava.

E quando ela lhe perguntava de onde tirava tantas histórias ele respondia: ¿ ¿ Dali. Não está vendo aquele livro amarelo ? ¿

E ela olhava para o espaço que ele lhe apontava, chegava a estender as mãozinhas para tocar o que só tocaria muitos anos depois, quando entendesse a magnitude daquele avô que criava livros amarelos, fabricava espadas de Falcão Negro, incentivava a imaginação daquela menina que com ele não era triste nem sozinha porque havia olhos que olhavam para ela, histórias que saiam de um livro mágico só para ela, e o amor de um avô que por ela passava a ser criança outra vez.

E hoje, passados tantos anos, ela se dá conta que Deus atendeu ao seu pedido: o seu boneco Fred virou gente , mais que gente, virou o seu maior e grande herói com um amor imenso dentro do livro amarelo.

{11/18/2007}!


Sábado, Novembro 22, 2003


Para Denise Jorge e Lea Penteado
" Todos os dias fotografo o nascer do sol para aprender a carimbar em mim a vida " ( Vera Linhares )


{11/18/2007}!



{11/18/2007}!


O SINAL

Quase uma semana já se passara e nela era como se não houvesse passado um só segundo. Estava ali, no mesmo lugar escuro , mesmo quando olhava o céu e ocasionalmente via algum vestígio de luz.

Mesmo assim, continuava indo à praia todos os dias, buscando o sinal. Sabia que só depois do sinal poderia se perdoar.

E aquele era mais um dia, igual a todos os últimos seis dias anteriores em que repetia o mesmo ritual. A mesma praia, o mesmo mar, o mesmo céu e a mesma dor, a mesma culpa, o mesmo vazio.

No entanto, enquanto tentava se concentrar na meditação de olhos fechados, foi sentindo aos poucos um certo calor do sol no seu corpo, um calor que se antes tinha toda uma intimidade com ele, agora recebia-o com surpresa. Seria, finalmente aquele, o sinal?

Mas não. Não era o sinal e ela tentou se concentrar um pouco mais na respiração, no ar que entrava e saia dos seus pulmões, em cuja saída tentava entregar sua própria escuridão ao mar .

Tudo parecia precisar de um grande esforço, de uma grande concentração mas ainda assim ela não desistia. Um dia, nem que fosse no último da sua vida que agora decidira que só Deus escolheria, sabia que essa sinal chegaria.

E foi lentamente abrindo os olhos, voltando a enxergar a areia que tão generosamente recebia o mar, olhando as mesmas ilhas no meio do horizonte , percebendo sutilmente que alguma coisa estava acontecendo dentro e fora dela, que alguma coisa estava mudando muito delicadamente.

Foi quando , olhando ( como fazia todos os dias ) a Pedra da Gávea, ela , extasiadamente viu o sinal: um grande, um enorme Arco-Íris formava uma imensa coroa de luzes coloridas sobre a Pedra que era um marco em sua vida, com aquele Arco-Íris que transformava aquele momento no instante mais mágico, mais lindo da sua vida.

Deus a perdoara e não podia ter-lhe dito isso de forma mais clara. E se Deus a perdoara , agora ela também podia se perdoar.

E ajoelhada frente aquele quadro que nunca mais sairia da sua memória, agradeceu à infinita generosidade divina e se perdoou pela fraqueza da sua condição humana, pela fragilidade que reveste essa condição humana .

E inteiramente colorida pelas cores do Arco-Íris, ficou de pé e recomeçou o seu caminho . Porque novamente via o caminho, porque novamente sentia o caminho , porque agora , mais do que nunca, se sentia responsável por esse caminho que Deus lhe ofertava, mais uma vez, através do sinal.

O sinal de que além , sobre o arco íris há um lugar, onde o céu sempre azul nos faz sonhar e onde a gente consegue os sonhos realizar.

04.11.2003


{11/18/2007}!



{11/18/2007}!


NUMERO 187

Todos os dias, na sua habitual caminhada em busca do mar, do nascer do sol, olhava aquele prédio: rua tal 187.

E ficava imaginando o glamour que por volta dos anos 50 cercou a sua construção quando o Leblon era pouco mais que um areal e os banhos de mar ainda tinham uma conotação curativa e os maiôs dos homens mais pareciam pijamas e os das mulheres eram cuidadosissimos em cobrir ¿ as partes ¿ .

E o 187 ali, imponente, sem a cerca que ainda o deixa mais triste agora, uma vez que naquela época o mais que existiam eram ¿ gatunos ¿ rapidamente espantados pelos apitos dos guardas noturnos.

A entrada do 187 era simples mas acolhedora, com um pequeno caminho aberto como braços que recebem amigos.

E na época em que carro era uma raridade, ainda se dava ao luxo de ter sido construído com uma garagem que cabiam uns oito carros. Um verdadeiro luxo, o 187 nos anos 50.

E hoje, quando passo por ele todos os dias, o reverencio como se deve reverenciar quem um dia foi majestade. E peco perdão a ele pela humanidade ter uma memória tão fraca e esquecer com muita facilidade os seus antigos ídolos, as marcas do seu tempo.

E ao ver suas paredes cor de rosa, descascadas como rosas que se desfazem por falta de água, por falta de cuidado, por falta de carinho, com lixos acumulados displicentemente pelos cantos, penso que a velhice não precisa ser necessariamente um abandono.

Que nos paises mais desenvolvidos o que aqui se chama velhice lá se chama, respeitosamente ,de antiguidade e recebe os cuidados que o curso, o desenvolvimento da criatividade humana um dia desenvolveu.

Mas se os homens ¿ inclusive os que ainda moram nele ¿ delegaram-no ao abandono, eu o recrio todos os dias e recrio também aquela fase maravilhosa, nas quais os ladrões eram apenas gatunos e os homens não tinham medo.

31.10.93
{11/18/2007}!


Quinta-feira, Outubro 30, 2003


O que não me mata me fortalece





Terça-feira, Outubro 28, 2003


" Há dias em que a vida dói
como um falsete no ouvido
como estilete no figado
como gilete
como o bote do chacal. "

28.10.2003


{11/18/2007}!


Segunda-feira, Outubro 27, 2003







MORRO DOIS IRMÃOS

Todos os dias em que ia à praia fazer a sua prática e conversar com o mar, acabava sempre olhando para ela.

E lá estava ela: com cada uma das suas fortes montanha em pé por si mesma , estruturada sobre as suas própria bases mas ¿ olhada da praia do Leblon ¿ formava um desenho delicado que as unia como se formassem juntas um só bloco, um só coração.

Um coração adornado pela fértil vegetação que nascia em volta, por uma parte da favela da Rocinha que à noite, principalmente nas noites em que a lua abraça o sol, parecia formar para ela um conjunto de estrelas douradas, quando as luzes se acendiam.

Um coração que virado para o mar, pareceria se projetar infinitamente no horizonte, olhando a chegada e a partida dos barcos e navios que ancoravam ¿ eventualmente ¿ no mar.

Os barquinhos e navios chegavam os barquinhos e navios iam. Mas as pedras que formavam aquele estranho coração permaneciam lá.

Nos dias de chuva , eram juntas que recebiam os raios que se projetavam estrondosamente pelo céu e que nem com toda a sua intensidade as separava, as águas que desciam ¿ como uma saia ¿ pelos seus contornos, e quando chovia muito e as nuvens vinham passear no mar, ficavam ali, escondidas atrás do cinzento das nuvens, com a certeza que um dia o sol voltaria a brilhar.

E quando o Sol voltava, pessoas alegres e coloridas tentavam subir nos seus colos, homens-pássaros sobrevoavam o alto de suas colinas, e o mar ¿ nos dias de maré alta ¿ as reverenciava como se pudesse tocá-las.

Era duas montanhas que pareceriam uma. Era o nome de uma pedra que pareciam duas.

Mas uma ou duas , não importa. O fato é que estavam ali.

E o coração que formavam terminando o Leblon e guardando cuidadosamente o sol quando ele se punha era mais uma das infinitas generosidades doadas por Deus para que os olhos dos homens atentos possam e saibam olhar.

Os homens a chamaram de Pedra da Gávea. Eu a conheço como pedra do amor.

O amor que nenhum raio poderá derrubar, que nenhuma nuvem poderá esconder e que a cada nascer do sol, a luz vem reverenciar.

{11/18/2007}!


Quinta-feira, Outubro 23, 2003




O POTINHO DO ARCO-ÍRIS

Gostava de dizer coisas definitivas ¿ mesmo agora, sabendo que elas não são ¿ talvez porque tivessem maior impacto aos seus ouvidos. Gostava de ter ¿ coisas da sua vida ¿.

E ¿ Over the rainbow ¿ era a música de sua vida.

Aos 20 anos, quando certamente morava em outro planeta que não a Terra, ou pelo menos dentro de outra alma que não a sua, ouvia horas a fio a tradução ( sempre teve problemas com o inglês. Nunca passou do ¿ The book is on the table ¿ ) que dizia: ¿ Certa vez eu ouvi alguém contar, que além , sobre o Arco-Íris , há um lugar onde o céu sempre azul nos faz sonhar e onde a gente consegue os sonhos realizar ¿.

E passou 53 anos anos da sua vida buscando esse lugar, esse potinho de ouro na ponta de algum arco-íris.

Achava uma moedinha aqui, outra ali, cunhava nomes, rostos e lugares nessas moedas que ¿ se não eram as verdadeiras moedas do potinho do arco-íris ¿ formaram também um pequeno tesouro de pessoas, de amigos, até de vários tombos que ia dando pelo caminho.

E todas as vezes que estava triste, cantava e chorava a música. Cantava e chorava a vida.

E foi numa rua muito escura, escura como o meio do oceano nas noites de lua nova que caindo ao chão porque mais nada enxergava à sua frente, sentiu sua face pousar sobre uma superfície fria, de bordas cortantes.

Com o restinho de forças que lhe restava levantou um pouco a cabeça e olhou para o objeto frio, cortante, sobre o qual o seu rosto caíra. E deparou-se com um caco de espelho.

E foi naquela rua escura, escura como o meio do oceano em noites de lua nova que viu sair daquele espelho a luz das moedas do que era o seu potinho e o seu próprio arco-íris.

Rio, 23 de outubro de 2003








Quarta-feira, Outubro 22, 2003


{11/18/2007}!



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" De um lado de minha alma há madressilvas, do outro o cavalo selvagem e o lobo espreitam " ( Vera Linhares - 1998 )

Essa é a abertura do presente que me dei pelos meus 50 anos: " Cantiga de Roda na Contra Mão " ( www.veralinhares.com )

Apareçam !




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CALEIDOSCÓPIO

E lá estava ela, mais uma vez a caminho do mar do Leblon, como em todos os dias que fazia sol.

Tinha um ritmo de ir, outro de voltar.

Ia olhando cada coisa como se tivesse olhos de caleidoscópio, aquele brinquedo das crianças de antigamente.

Conversava com as flores e parecia que , como o movimento dos caleidoscópios, mimetizava as cores de cada uma delas. E parecia se importar muito pouco com o que as pessoas - achando tudo aquilo muito esquisito ¿ pensavam dela.

A primeira grande amiga que fez nesse caminho diário, chamou de Magnólia. Magnólia de magnífica, de mágica, de maga que olha. Era uma árvore muito sensual, a Magnólia, com seus longos cabelos que iam quase até o chão e pernas que pareciam dançar magnèticamente, como a reverenciar cada dia que começava e as pessoas que ¿ indiferentes ¿ passavam.

Depois conheceu outra amiga, a quem deu o nome de Sat. Nunca conseguiu entender como uma árvore conseguia ter uma base tão grande que ora se parecia com uma pata de elefante, ora com o planeta Saturno e ao mesmo tempo ir subindo, subindo, subindo e se transformando em vários e finos pescoços que terminavam em alegres cabeleiras meio punks que de tão leves se moviam à mais leve passagem do vento. Tudo isso contornado, muito femininamente, por uma linda cauda de pavão.

E assim ia girando esse caleidoscópio, dançando com as árvores que abraçava pelo caminho até que um dia, abraçada a uma delas, ouviu de um homem que passava correndo como a maioria dos homens corre : ¿ Há sempre um machado cravado nas raízes de todas as árvores ¿.

E tudo aconteceu talvez numa fração de segundos: a indignação de ter o seu abraço interrompido por uma frase tão cruel ( cruel como a correria dos homens ), a raiva que veio da indignação, o perdão pela ignorância daquele homem e finalmente o entendimento, a compreensão.

E após essa fração de segundos, seguiu adiante girando o seu caleidoscópio porque o homem tinha razão. Nenhuma raiz, nenhuma árvore, nem mesmo o machado é permanente. Mas o amor que uniu a mulher e aquele árvore naquele abraço , isso sim, sempre será.

E com o amor dançando dentro do seu caleidoscópio, seguiu seu caminho em busca do mar.

Leblon, 23 de outubro de 2003.
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Terça-feira, Outubro 21, 2003

PARA SÍLVIA


Quando eu era criança e brincava na pracinha, havia uma mulher que se chamava Sílvia.

Todos diziam que ela era louca porque se vestia com umas roupas esquisitas, com brincos e colares vagabundos e extravagantes, as unhas imensas pintadas de vermelho e passava os dias contando as árvores da praça. Acho que ela pensava que era esse o seu trabalho , a sua tarefa diária, à qual dava muita importância.

Por dar tanta importância, sofria muito quando ia chover, porque ela não poderia realizar o seu trabalho.

E a criançada, só para atormentar a mulher, bastava vê-la que começava a gritaria: " - Sílvia, vai chover !!!! " E ela - já sofrendo por antecipação, esbravejava e jogava pedras, frutinhas que caíam das árvores, enfim, tudo que estivesse ao seu alcance em cima daquelas crianças que praguejavam o que ela mais temia: a chuva.

Eu nunca fiz parte desse coro e não entendia por que aquelas crianças faziam aquilo se faziam a mulher sofrer tanto. E acho que eu era a única criança que ela gostava, pois embora não falasse comigo, sorria para mim. Nunca esqueci essa mulher.

Talvez por que já existisse uma Sílvia dentro de mim. Quando chove e eu não posso fazer o meu caminhozinho de Oz, abraçar as minhas árvores, também fico muito triste, como se algo ficasse faltando - de muito importante - no meu dia.

E nesses dias em que a crise voltou - de outra maneira, você sabe - sinto falta do sol que faz renascer diàriamente a minha esperança de que a minha própria luz também vai voltar a renascer , do mar que renova a minha confiança que eu também vou vencer muitos obstáculos até alcançar a minha areiazinha, da terra que sinto sob meus pés e que me faz sentir que tenho um mínimo poder de sustentação e do ar que me liga a tudo que existe nesse universo.

E quando o tempo vai se fechando , é como se a criança que existe dentro de mim dissesse: " Vera, vai chover ".

E eu fico assim, chovendo por dentro.


{11/18/2007}!